dezembro 09, 2008

Ouro Preto (Centro)

Património Mundial desde 1980, Ouro Preto tem conhecido algumas ameaças de desclassificação. Para quem a visita por um dia, ainda que seja difícil partir sem ter observado e entranhado a tão vasta e esplendorosa monumentalidade, que começa na rua e termina nos museus e igrejas, nada parece difícil.
No entanto, quem lá vive e circula diariamente não deve achar graça nenhuma à obrigatoriedade de se manter a traça original das ruas, infernizando-se ainda mais o sobe e desce constante. O meu guia "taxista" não se cansou de dizer, com enfado: " Aqui, não vivia, não".

dezembro 02, 2008

novembro 29, 2008

Montanhas de ouro escravo



Toda a colonização foi um processo de exploração contínua em nome dos valores mais universais de justiça e mais sagrados no respeito pelo divino. Assim queria Deus, assim faziam os homens, seus humildes serventes.
Esta imagem mais se nos torna clara quando estamos perante a realidade da colonização portuguesa no Brasil, sobretudo em Minas Gerais, no triângulo do Barroco, ou seja, S. João del Rei, Tiradentes e Ouro Preto.
Depois de ter visitado as duas primeiras cidades, tive a oportunidade de presenciar a imponência e riqueza de Ouro Preto (primeiramente, chamada Vila Rica), a que prefiro chamar as montanhas de ouro escravo, não só pela localização encravada em redor de montanhas, como se de um fundo da terra saísse a salvação das pessoas, bem como pelo trabalho escravo e negro tão fundamental na exploração do ouro.
Ouro Preto, classificada como património da Humanidade, pela UNESCO, é acima de tudo a memória viva da obra gigantesca das pessoas, só possível em tempos de imensa abundância e
de intenso fervor mítico.
Cada Igreja da cidade é um local de remissão de pecados, como se as obras do
Aleijadinho, e de tantos outros escultores, fossem a salvação para os duros e terríveis males do modo de viver dos nobres e clérigos.
Apesar dos rios de chuva que enfrentei, em Novembro de 2008, Ouro Preto é um local para visitar e para ficar uns dias e, se possível, pois a vida do passado só pode ser compreendida se dispusermos de tempo suficiente no presente, sem pressas e sem horários.
Infelizmente, só dispus de uma manhã para estar em Ouro Preto e muitas das igrejas que pretendia visitar encontravam-se fechadas. É uma outra forma de não promover o turismo.



novembro 27, 2008

A minha lousa...

Ultimamente, tenho entrado em muitas salas de aula da escola do 1º ciclo do ensino básico. As salas que agora presencio alteraram o visual, há desenhos por todo o lado, dispersam-se materiais pelas mesas, desapareceram as imagens relativas ao Estado Novo - Deus, Pátria e Família, por exemplo, quem não se recorda desta frase e da imagem de felicidade de uma lar rural? - e foi apeada a figura triste e sisuda de Salazar.

Todavia, o núcleo da sala de aula não sofreu alterações significativas. Permanece o quadro negro, monitor do conhecimento escrito, mesmo puído pelo som estridente do giz branco em conflito permanente com os dedos frágeis, e em muitas salas, sobretudo nas mais antigas, continua a figura cimeira do Cristo crucificado, lembrando que a aprendizagem também é sofrimento.

A minha lousa de xisto, onde comecei a escrever as primeiras letras e a fazer as primeiras contas, já não existe. Deixou de ter lugar. E como gostava dela, de limpar as letras e números com os punhos da camisola, transportando-a para a escola todos os dias. Jamais imaginara que a recordaria mais tarde, dedicando-lhe algumas palavras, que ela me ensinou a organizar.

A minha lousa partiu-se e no seu lugar surgiu o computador. Lenta e entusiasticamente, a lousa de todos nós, de um passado ainda recente, converteu-se no “Magalhães”, esse computador que promete revolucionar a escola.

Nunca dera um nome à minha lousa, se fosse hoje talvez lhe chamasse “Bartolomeu”, esse navegador algo esquecido que nos deixou o legado da aventura, ensinando-nos como é possível transformar a escola das tormentas numa escola de boa esperança (A propósito, e para quem gosta de embarcar nos descobrimentos portugueses, metendo-se por esse mar dentro na caravela da literatura, sugiro a leitura do livro “O Navegador da Passagem”, de Deana Barroqueiro).

Entre o “Bartolomeu” [Dias] de ontem e o [Fernão de] “Magalhães” de hoje, existe em comum a descoberta em direcção ao desconhecido. Essa é a grande aventura da escola. A sala pouco se alterou, parece-me que continua a ser um espaço muito pobre ao nível de um ambiente escolar, não estando a solução miraculosa num computador, ainda que se deva reconhecer que os alunos de hoje navegam noutros mundos do conhecimento, nos quais podem entrar se aprenderem o que é básico numa escola dos primeiros anos de escolaridade.

Mesmo assim, a lousa não é diferente do computador, pois foi o registo permanente das minhas dúvidas e do meu imaginário. A energia da lousa estava nos alunos, talvez tenha sido essa a grande lição de um recurso tosco, escuro e inconcebível para os alunos das escolas de hoje, tão ligados aos computadores.

novembro 08, 2008

Depois de 8 de Março, o dia 8 de Novembro.

Mais uma vez os professores concentraram-se em Lisboa numa manifestação contra as políticas educativas, mas sobretudo contra o modelo de avaliação.
A 8 de Março começou o protesto, a 8 de Novembro continuou, com mais professores, e no futuro serão ainda mais.
Perante tantas evidências de que muita coisa está a correr mal neste complexo processo de avaliação do desempenho docente, a ministra da educação continua a não querer ver o que está à frente dos seus olhos: os professores não estão instrumentalizados pelos sindicatos, apenas se revoltam contra o que é o seu dia-a-dia de burocracia administrativa.
Já é tempo de mudar, mas mudar para melhor, reconhecendo-se que foram cometidos erros que é preciso corrigir.
E neste caso é preciso saber ler nua e cruamente o que se passou nas duas manifestações nacionais, deixando-se para trás posições inultrapassáveis, pois a educação dos nossos filhos não se compadece com questões políticas enquistadas, nem tão pouco com horizontes eleitorais.




novembro 07, 2008

CIM Alto Minho

Acaba de ser criada a Comunidade Intermunicipal do Minho Lima. Os seus progenitores são 9 concelhos do Alto Minho, ficando de fora o de Viana do Castelo.
A imprensa tem relatado as diversas peripécias deste caso, sobretudo as birras políticas de um presidente de câmara que manifesta não só miopia política, fazendo do seu concelho e das suas freguesias o umbigo para o qual olha permanentemente, bem como falta de solidariedade para com os restantes concelhos.
Paredes de Coura, ou quem diz, Cerveira, Monção, Melgaço, Ponte da Barca, fica possivelmente no deserto ou num recanto de Espanha.
O argumento utilizado pelo autarca de Viana resume-se à questão da proporcionalidade dos lugares para os órgãos da comunidade. Numa palavra: não quer partilhar decisões, quer impor a vontade centralista da capital distrital. Pobre argumento este num tempo em que é necessário dar as mãos e olhar em frente, deixando-se para trás os pormenores locais e regionais!
Vamos esperar pelo referendo que se avizinha, mas logo começou com uma derrota pelo Tribunal Constitucional que rejeitou a pergunta escolhida.

outubro 26, 2008

Por este Portugal dentro...(5)

Castelo Rodrigo: interior.

Por este Portugal dentro...(6)

Castelo Rodrigo: exterior.

Por este Portugal dentro...(4)

Castelo Rodrigo: entrada.

Por este Portugal dentro...(3)

Figueira de Castelo Rodrigo

Por este Portugal dentro... (2)

Mata de Lobos, uma freguesia nas arribas do Douro e no planalto do Côa.

Por este Portugal dentro...

Castelo Rodrigo... ao fundo, Mata de Lobos.

outubro 19, 2008

Nulidades

O nulo entre Portugal e Albânia está dentro das nulidades desportivas, dito de outro modo: das nulidades de Carlos Queiróz.
Não é preciso ser especialista de nada, nem tão pouco recorrer ao chavão do treinador-de-bancada, para entender, nua e cruamente, que Portugal não tem treinador à altura.
Para quem esteve no campo Municipal de Braga, e não alinho em publicidade, claramente viu que era possível ultrapassar a fraca selecção albanesa, mas só o ainda treinador-seleccionador é que não viu isso mesmo.
Por mim, deixei de acreditar.

outubro 16, 2008

Porque partem?

Neste reino de incertezas, depois de uma leve (e breve, pois o sistema renascerá ainda mais forte) derrocada do sistema capitalista, a que muitos chamam neste momento neoliberal, a precisar da ajuda explícita e visível do Estado, há uma grande insatisfação junto dos professores portugueses.
Vivendo momentos de anormalidade burocrática, educadores e professores dos ensinos básico e secundário estão à beira de uma crise de nervos, não disfarçando a sua desilusão e o seu desinvestimento pessoal e profissional.
Por isso, muitos deitam a toalha ao chão e pedem antecipadamente a reforma.
É sobre isto mesmo que João Gobern, um jornalista acutilante no verbo, diz nesta
crónica radiofónica, que um amigo meu fez o favor de me enviar.

setembro 20, 2008

Do lado da minha terra


Não o rio da minha terra, porque esse é festivaleiro, sendo muito conhecido pela lado da música que o tem colocado no topo internacional,mas a Igreja da minha terra,de gratas memórias.

setembro 15, 2008

Balanço em educação

O Jornal Expresso publicou na sua última edição, de 13 de Setembro de 2008, um balanço sobre os 4 anos de governação socialista em matéria de educação.
Em resposta ao convite, aqui fica o que escrevi.

Passageiros do tempo.


Das férias ficam imagens fugazes e inscritas no imaginário do tempo ao qual nos foi dado pertencer.
De um tempo que se desenha na areia movediça, fazendo com que sejamos apenas passageiros.

setembro 08, 2008

Rio... sempre Rio (2).

Para quem tem a liberdade de viajar sem integrar os cansativos grupos, um amigo meu francês chamava-lhes a brigada do reumático, e se tiver uma manhã disponível no Rio de Janeiro, aconselho o seguinte percurso:
Siga da Avenida atlântica, um dos melhores locais para ficar no Rio, para o centro da cidade através de metro (ô). Ainda é o melhor transporte porque barato e super-seguro, o que pode ser contraditório nesta cidade tão periclitante. Para chegar à estação Cantagalo, siga pela Rua Miguel Lemos, e de lá deixe o metro na estação Carioca.
Neste largo aproveite para visitar o mosteiro de Santo António, logo ali ao lado.
Terminada a visita, caminhe pela Avenida Uruguaiana e logo seja envolvido pelo movimento frenético das ruas, plenas de lojas de comércio, de vendedores de rua e de andarilhos de publicidade. Depois de alguns minutos, siga pela Rua Ouvidor e entre na Confeitaria Colombo, na rua Gonçalves Dias. Se não almoçar, pelo menos um café e o irresistível bolo são obrigatórios.
Daí siga para a Avenida Rio Branco, e daí para Avenida Presidente Vargas.
Respire fundo: chegou à Candelária, uma igreja de má memória para a consciência de todos nós, devido à chacina dos meninos-de-rua.
Entre de seguida no Centro Cultural Banco do Brasil e demore-se na visita a exposições, sempre gratuitas.
Saia do edifício pela porta lateral, e entre na rua 1 de Março, que o leva ao Largo do Paço, à Igreja do Carmo e ao Palácio Tiradentes.
Se estiver cansado, entre na Livraria do Largo do Paço, procure um livro na estante e beba relaxadamente uma garrafa de água.
Retorne pela Rua do Ouvidor, que conflui com a Avenida Rio Branco, e siga até à Praça Tiradentes. Aí procure que logo ao lado encontra-se nada menos, na rua Camões, o Gabinete Real de Leitura, uma biblioteca que é a verdadeira obra-prima da cultura portuguesa em terras brasileiras.
Regresse a Copacabana de metro a partir da estação Uruguaiana.
Garanto que gostará imenso deste passeio mas desde que tome todas as devidas precauções: use muito pouco a máquina fotográfica (ou não a use), evite acessórios e esteja atento.

agosto 28, 2008

Rio... sempre Rio (1).

Depois de um dia intenso em Petrópolis, com saída e chegada ao Rio de Janeiro no espaço de doze horas, mergulhada numa neblina fria e numa humidade permanente, regresso ao calor de Copacabana, sempre ímpar na sua pose de postal turístico, já depois da noite ter caído, e bem cedo, como é hábito por estas paragens.
Para compensar o dia cansativo nada melhor que apanhar um táxi (e no Rio os táxis estão à distância do levantamento de um braço, dada o número exagerado de "amarelinhos" que inundam a cidade) para Ipanema, onde me encontro com dois bons e velhos amigos brasileiros.
Alessandro E Frederico, como podia ser o Salitre, ou o Artegiano, é um local sereno, calmo e propício para comer alguma coisa, num estilo gastronómico muito francês, e dedilhar conversas agradáveis.
Mais ao lado estão os bares ou os "Chopes" repletos de estórias, com destaque para o da Garota de Ipanema, cada vez mais virado para o turismo. O bar Garota de Copacabana, nas traseiras da Avenida Atlântica, é uma fraca imitação.
E a noite ainda termina com um café em Leblon, um bairro que nos faz sentir numa qualquer cidade europeia de primeira grandeza.

agosto 25, 2008

Eleições municipais

Já cheira a eleições em Portugal e certamente já muitos se esqueceram das promessas e dos desempenhos dos eleitos em quem votaram.
Pois, bem, as eleições municipais estão presentes no quotidiano dos brasileiros.
Ao percorrer as ruas de Copacabana sinto-me brasileiro porque os distribuidores de propaganda lá me vão entregando o miraculoso papel, pensando que em Outubro devo votar nos seus candidatos. E se votasse não só escolheria o presidente da prefeitura, bem como os vereadores em listas separadas.
Mas esta reforma ficou pelo caminho em Portugal.
Dentro da imaginação tropical, as eleições no Brasil são uma festa de propaganda de rua.
Tudo serve para propagandear e tudo serve para duelar.
E como me sinto bem a receber a propaganda, desse modo não sou considerado turista, diariamente vou registando os discursos dos candidatos, mesmo sabendo que muitos deles têm problemas sérios com a justiça, pelo menos segundo a acusação dos jornais.

agosto 18, 2008

agosto 17, 2008

Tarrafal... o horrível

Para quem ouviu falar do Tarrafal lembrar-se-á decerto de uma prisão política agregada ao regime salazarista, de má memória para a democracia. Apesar do semi-abandono actual, apesar do seu desmantelamento nos anos de 195o, apesar de tudo o mais que se possa dizer, trata-se ainda de um local que provoca um mal-estar pessoal e um sofrimento que jamais pode ser esquecido.
A visita a Cabo Verde, para quem se desloca à Praia, na Ilha de Santiago, deve incluir, obrigatoriamente, a visita ao Tarrafal, localidade que mistura o horrível e o belo.

agosto 04, 2008

A escola nas "Quintas das Fontes"

Em tempos de Verão, a leitura de jornais torna-se num acto sacrifical, sobretudo quando impera o escrever sobre nada.
No entanto, há uma excepção: a entrevista de Felix Bolano, inserida no Jornal PÚBLICO, de 20 de Julho, sobre os males da Quinta da Fonte.
Não deixo de transcrever dois parágrafos sobre a inserção dos jovens na escola:

"Perto de 90 por cento dos alunos são de origem africana, até porque nos 2º e 3º ciclos a etnia cigana tem tendência a desistir da escola e temos feito tudo para convencer de que vale a pena continuar. Para isso temos de combinar a educação formal, a que o Ministério nos obriga, e a educação não formal, que tem tanta ou mais importância que seguir os currículos.

O que é a educação não formal?
É transmitir competências sociais tão importantes como saber estar em grupo, conseguir ser diferente do grupo, ser capaz de ser minoritário e respeitar os outros, sabendo que os outros o respeitam, conseguir o de vida, dizer o que se quer ser quando se for adulto. É também saber resolver problemas de relacionamento, saber pedir ajuda, não ter vergonha, no fundo, responder aos problemas de um bairro onde há muitos ilegais que têm medo e não sabem o que fazer. A nossa preocupação é dar-lhes ferramentas para viverem melhor na nossa sociedade".

julho 19, 2008

Mais alterações

Mais alterações pontuais, quase sempre pontuais nos últimos anos, são anunciadas pelo ministério da educação para o ensino básico.
Os resultados justificam os meios, pelo menos na concepção de muitos governantes.
Daí que, em vez de proceder a uma análise profunda do problema que está na base do insucesso dos alunos ( mas isso levará tempo a dar frutos!), a decisão, politicamente justificada pela sobrevivência a curto prazo, consiste em remendar, tal como revela o despacho do ministério da educação .
E de remendo em remendo vai a educação deste país chamado Portugal...

julho 09, 2008

Exames

Os resultados dos exames (1ª fase) no ensino secundário são francamente melhores, de acordo com informação do Ministério da Educação, com excepção do Português.
Que leituras possíveis?
O aumento do tempo para a realização das provas tem incidência nos resultados finais.
Os professores dedicam-se mais à escola.
Os alunos estudam mais.
Os pais apoiam mais os seus educandos.

Tudo isto é possível que tenha influência. No entanto, só um estudo mais profundo, tendo em conta todos estes factores, mas sobretudo a estrutura do exame e sua articulação com os conteúdos leccionados e níveis de exigência, é que pode concluir sobre o que realmente se passou neste ano lectivo.
Por exemplo, a Português é muito mais difícil melhorar os resultados porque as dificuldades do domínio de uma língua são bem profundas.
Não se resolvem com aspectos meramente técnicos.

julho 04, 2008

Pobreza

Ainda passeando pelas ruas centrais de Vancouver, talvez a Robson street seja a mais conhecida e referenciada nos prospectos turísticos, vou registando os pequenos momentos de uma tarde despreocupada e agradável.
Para além das pessoas, embora tenha a sensação de estar a 30% num país asiático, vou reparando nos anúncios publicitários e registando o tipo de comércio que uma rua movimentada pode oferecer.
De repente, deparo-me com placard, bem situado na esquina de duas ruas, que me chama a atenção pela beleza da fotografia, talvez retirada da região de British Columbia. Mas imediatamente começo a ler a frase, que aqui traduzo: "A pobreza não deveria ser uma sentença de vida".
Pois é, não deveria existir uma prisão perpétua para os que estão na pobreza.
E nenhum estudo nos diz isso.
E também nenhum político tem tempo para pensar nisso.

junho 29, 2008

What time is it?

Neste final de Junho, em mais um regresso a Vancouver, deambulo pelas ruas quase desertas de uma manhã de Gastown, um dos locais mais turísticos da cidade.
Não tendo objectivo definido, apenas rever espaços já conhecidos, vou observando as pessoas que circulam, ainda que os "sem abrigo" sejam os que mais me chamam a atenção.
Na esquina de uma rua, sentadas num banco rodeado de floreiras, estão duas pessoas, já entradas na idade, falando para quem passa, possivelmente pedindo alguns restos de moeda para que os dólares canadianos permitam comprar alguma comida de sobrevivência.
Quando passo por elas, oiço uma débil frase, proferida por uma voz feminina, decerto tantas vezes repetida. Antes de a ouvir, já tinha classificado, e como evito responder, mais ainda quando as ruas estão semi-desertas e o local não aconselha conversas, já que começava a pisar o risco da segurança, apenas fiz um gesto com a mão.
Mas depois de ter gesticulado, numa resposta negativa, a frase fica-me no ouvido e grita contra a minha insensibilidade: "What time is it?".
O que ter-me-ia custado responder "ten to twelve"?
Não sei se a resposta desejada seria precisamente para distinguir a manhã da tarde ou se seria para obter mais uma moeda, sobretudo para quem o tempo é medido pela dor intensa de uma necessidade que se chama alimentação.
"Que horas são?", penso que tão cedo me sairá do ouvido.



junho 24, 2008

Facilitismo ... fácil

Todos sabem que Portugal apresenta ainda números exagerados no que diz respeito ao sucesso educativo e abandono escolar. As estatísticas neste aspecto não enganam e não podem ter segundas leituras.
É necessário melhorar. Também todos estão de acordo. Mas por onde começar?
Aqui, as opiniões dividem-se.
E como o mais difícil é corrigir questões estruturais, incluindo o interior das escolas, sobretudo no modo de trabalhar dos professores e alunos, alterem-se os critérios de exigência, ou seja, tornem-se os exames mais fáceis.
De facto, esta é a pior opção para corrigir o problema do insucesso.

maio 29, 2008

O estudo elaborado por Alfredo Bruto da Costa sobre a pobreza em Portugal revela uma das maiores debilidades do sistema político português. A direita sempre disse, e continuará a dizer, que a pobreza é estrutural e que as pessoas são pobres porque é a fatalidade de serem pobres, como se fossem os primeiros e únicos responsáveis por essa desgraça social; por sua vez, a esquerda acentua, como o fará sempre, que muita coisa já foi realizada e que os pobres já beneficiam de apoios sociais significativos.
Nesta lengalenga de ideia políticas, o problema persiste e todos sacodem a água do respectivo capote. O problema parece ser somente dos pobres e com esta pobreza se entristece a política.
Comentando o estudo Um olhar sobre a pobreza, em entrevista dada ao PÚBLICO, a 23 de Maio de 2008, Alfredo Bruto da Costa diz o seguinte, em resposta à questão de como romper com o círculo vicioso da pobreza:
"Uma das respostas é que o sistema educativo tem que ter condições de acesso e sucesso das crianças provenientes dos meios pobres. O sistema educativo está desenhado à imagem da família média e média alta: métodos pedagógicos, conteúdos, o apoio que a criança pode ter em casa...".
Pelo menos, nesta entrevista já se identificou um dos factores que mais contribuem para a pobreza: o sistema educativo.


maio 26, 2008

Marte: tão longe e tão perto!


Primeiras imagens da Phoenix no dia em que chegou a Marte.

maio 19, 2008

Acordo ortográfico

Concordo com o acordo ortográfico, ratificado pelo parlamento português na semana passada, mas não sou perentório quando à sua missão salvadora da língua portuguesa.
Esta semi-indecisão, dentro de uma vasta semiconvicção, resulta de pretender ser pragmático na escrita da língua, ainda que a uniformização total é algo que me preocupa neste mundo cada vez mais igual. Há outras línguas mais influentes que têm diversas variantes e não é por isso que deixam de ser batizadas como essenciais.
Nos textos que se escrevem em Português, e por mais acordo que seja aprovado, há de existir sempre a diferença. Para lá da ortografia, há uma diversidade de palavras para a mesma realidade e a estrutura frásica de quem escreve (em Portgual, no Brasil, em Timor, em Cabo Verde, em S. Tomé e Príncipe, na Guiné ou em Moçambique) é bem diferente. E sobre estes dois aspetos não é possível gizar-se qualquer acordo.
Por isso, tal como tem sido feito, quando publicar um livro com autores portugueses e brasileiros, manter-se-á esta designação: "Texto escrito em português do Brasil (ou de Portugal) , com a manutenção da estrutura frásica respetiva"

(a negrito, as palavras com nova ortografia)

maio 10, 2008

"Chumbar" os alunos na escola?

A escola está sempre no centro de debate, seja por aquilo que faz ou não faz ou seja pelo que ensina ou não ensina.
Uma das polémicas mais recentes diz respeito ao papel da avaliação na escola. Segundo um relatório recente da OCDE - de que a ministra da educação se tornou imediatamente porta-voz - o chumbo dos alunos não traz nada de novo para o sistema, a não ser os encargos financeiros com mais professores e mais despesas, que devem ser multiplicadas pelo menos por 30%.
Todos estamos de acordo com o fim da não progressão, mas desde que os alunos tenham hipóteses de recuperar dentro da escola em função de um apoio educativo efectivo que os ajude a ultrapassar as dificuldades.
Mesmo assim o problema continua, pois não se pode pensar que tais apoios devem existir nas escolas somente à custa do tempo de estabelecimento, integrado nas 35 horas semanais de cada professor. Admitir esta solução, tal como é perfilhada pelo Ministério da Educação, é adiar o problema, admitindo-se que não querer reter os alunos é o mesmo que obrigá-los a passar para que os recursos financeiros não sejam inflacionados.