Com Homero... tudo começa
No autorretrato
exposto no Centro de Arte Moderna Gulbenkian, a figura de Almada Negreiros, de
traços surrealistas, carregados a carvão, coexiste com frases de autores aos
quais esteve intimamente ligado, tanto na literatura como nas artes.
E a primeira frase
pertence ao pintor francês Delacroix: «Homero é nos antigos a nascente donde
tudo saiu.»
Homero é, por si
mesmo, um autor enigmático na escrita da Odisseia e da Ilíada,
as suas duas obras principais, em que se sobrepõem vários autores ao longo do
tempo, incluindo os aedos que cantavam os seus versos, criando uma cadeia oral
de fixação dos textos fundadores da literatura, aos quais se juntam, no período
greco-latino, Virgílio, Horácio e Ovídio, este último autor de Metamorfoses,
para mim a fonte inesquecível que continua a inspirar autores, porque as suas
palavras a todos os tempos pertencem.
Acerca da Odisseia
e da sua questão autoral, Frederico Lourenço, tradutor exímio que nos brinda
com o rigor das fontes e das palavras, escreve o seguinte: «Apesar da sua idade
vetusta de dois mil e oitocentos anos, lê-se ainda hoje como se tivesse sido
composta ontem, ao nascer do sol.»
E compara-a a «uma Sé medieval, que sobre o
primeiro núcleo românico recebeu acrescentos góticos, manuelinos e outros», beleza
extraordinária que o mesmo reconhece, de resto, na Sé de Braga,
Depois da leitura da Odisseia,
feita há muitos anos, vi o filme do realizador Christopher Nolan. E gostei,
sinceramente, por mais que as cenas se demorem nas façanhas, quase divinas, de
Ulisses.
Saí do cinema a
pensar no autorretrato. O que Nolan faz com a luz, Almada fizera-o com o
carvão: não desenhou apenas um rosto, inundou-o de palavras alheias. As frases
que lhe atravessam a testa e o queixo são as dos autores que leu, e é por elas
que ele se dá a ver.
Não há, decerto,
maneira de nos representarmos sem convocar quem veio antes, ou mesmo quem
esteve na nascente das coisas.
A multiplicidade de
obras, autores, textos e imagens é, inelutavelmente, um rio de ideias que corre
dentro de nós, dando forma e relevo à criatividade, essa que se procura,
trabalha e aprende até à exaustão.
E o que julgamos ser
a nossa cara é, quase sempre, o rosto dos outros a transparecer no nosso,
porque a nascente não seca: apenas muda de leito, criando um encantamento
cúmplice que confere diversidade à identidade pessoal, seja ela de um pintor ou
de um escritor.

