https://www.publico.pt/2026/06/15/impar/opiniao/educar-nao-otimizar-2178242
A
Magnifica Humanitas, carta encíclica Sobre a salvaguarda da pessoa
humana na Era da Inteligência Artificial, aborda uma questão que interpela a
essência do ser humano na sua irredutibilidade à tecnologia.
É comummente
proclamado que a inteligência artificial (IA) provoca uma revolução tanto no
conhecimento quanto nas formas de aprender e ensinar, mesmo
que as recomendações insistam no seu uso como um meio, na linha da distinção
que Heidegger estabelece entre tecnologia instrumental e tecnologia como
finalidade.
Já em 1965,
o Papa Paulo VI, na declaração Gravissimum
Educationis[1],
identificava
a educação dos jovens e a formação contínua dos adultos como uma circunstância
incontornável e fundamental. O ponto de partida do documento é a dignidade da
pessoa humana, consagrando que todo o ser humano, independentemente da sua
origem, condição ou idade, tem direito a uma educação que corresponda ao seu
fim, acomodada à sua índole, cultura e tradições. Ou seja, é um direito que os
poderes públicos têm a obrigação de assegurar e proteger. A verdadeira
educação, dizia Paulo VI, orienta-se para a pessoa e para a comunidade, sendo esta
o coração de qualquer projeto de formação, pois educar não é transmitir
conhecimentos, pelo contrário, é acompanhar
o crescimento de um ser humano que aprende a ser responsável por si e pelo
mundo.
Mas o que
significa educar hoje?
Vivemos um
tempo de aceleração tecnológica, proclamando-se um mundo novo para a educação,
como se exigia na década de 1960, sobretudo a partir do lançamento do satélite Sputnik,
em 1957, com repercussões profundas: a tónica passou dos conteúdos para os métodos
de pensamento, isto é, o aprender a aprender liderou a renovação pedagógica,
associada a Jerome Bruner e à sua obra O Processo da Educação, cujo
subtítulo – Uma discussão aprofundada sobre a educação
escolar, abrindo novos caminhos para aprender e ensinar – bem poderia ser uma publicação dos dias de
hoje.
Nesse tempo,
como no que hoje enfrentamos, e no qual nos posicionamos perante as
consequências da IA na educação, era necessário repensar a natureza do ato de
aprender e ensinar. De acordo com a Gravissimum Educationis, a missão insubstituível da
escola afirma-se precisamente na sua capacidade de integrar a dimensão
cognitiva, cultural, axiológica e profissional, acolhendo alunos de índole e
condições diferentes, promovendo a compreensão mútua e a participação ativa da
comunidade humana.
Paulo
VI falava da grande responsabilidade de todos os que têm o dever de educar, com
particular incidência nos professores, que exige especiais qualidades de
inteligência, uma preparação esmeradíssima e uma vontade sempre pronta à
renovação e adaptação. De facto, nada parece ter mudado desde essas ideias,
sobretudo quando o professor enfrenta turmas mais heterogéneas, contextos mais
complexos, exigências crescentes, não havendo tecnologia que altere a natureza
humana da relação pedagógica, que é a base da educação.
Leão
XIV, em maio de 2026, no encontro internacional Mapas de Esperança para uma
Agenda Educativa Regional, promovido pela Organização de Estados
Ibero-Americanos, utilizou duas metáforas bem elucidativas, aliás de acordo com
a carta apostólica Traçar Novos Mapas de Esperança, de outubro de 2025[2],
por ocasião do LX aniversário da declaração conciliar de Paulo VI.
A primeira
olha para a educação como arte de tecer a comunidade, pois nenhum fio por si só
basta para criar o desenho. Só o entrelaçado paciente gera beleza e
resistência. Cada fio conserva a sua própria cor, mas adquire significado
dentro de uma trama mais ampla. Sendo
uma arte de tecer um encontro pedagógico, a educação redescobrir-se-á ao
ultrapassar a pedagogia técnica, a aquisição de meras competências e a
construção de individualismos isolados, na medida em que aprender não é
acumular conhecimentos e dominar competências, é pertencer.
Outra metáfora relaciona-se com a crise das constelações interiores. Os povos antigos olhavam para o céu para ler as constelações, e nelas encontravam orientação e aprendiam a reconhecer o ritmo das estações e o tempo para as atividades agrícolas. Hoje, como no passado, é necessário voltar a levantar os olhos para a procura de significado ou de um sentido de vivência que nenhum instrumento tecnológico, por mais sofisticado que seja, poderá assegurar, porque cada aluno não é um algoritmo, suscetível de ser reduzido a um dado estatístico, a um desempenho e, por conseguinte, a uma competitividade exasperada que gera ansiedade, desorientação e desespero, como revelam muitos estudos sobre a saúde mental dos jovens. E quando se traçam novos e urgentes mapas, a educação tem de assumir um papel mais dinâmico, integrador e inclusivo.
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