junho 30, 2026

Educar não é algo otimizado

 

https://www.publico.pt/2026/06/15/impar/opiniao/educar-nao-otimizar-2178242


 

A Magnifica Humanitas, carta encíclica Sobre a salvaguarda da pessoa humana na Era da Inteligência Artificial, aborda uma questão que interpela a essência do ser humano na sua irredutibilidade à tecnologia. 

É comummente proclamado que a inteligência artificial (IA) provoca uma revolução tanto no conhecimento quanto nas formas de aprender e ensinar, mesmo que as recomendações insistam no seu uso como um meio, na linha da distinção que Heidegger estabelece entre tecnologia instrumental e tecnologia como finalidade.

Já em 1965, o Papa Paulo VI, na declaração Gravissimum Educationis[1], identificava a educação dos jovens e a formação contínua dos adultos como uma circunstância incontornável e fundamental. O ponto de partida do documento é a dignidade da pessoa humana, consagrando que todo o ser humano, independentemente da sua origem, condição ou idade, tem direito a uma educação que corresponda ao seu fim, acomodada à sua índole, cultura e tradições. Ou seja, é um direito que os poderes públicos têm a obrigação de assegurar e proteger. A verdadeira educação, dizia Paulo VI, orienta-se para a pessoa e para a comunidade, sendo esta o coração de qualquer projeto de formação, pois educar não é transmitir conhecimentos, pelo contrário, é  acompanhar o crescimento de um ser humano que aprende a ser responsável por si e pelo mundo.

Mas o que significa educar hoje?

Vivemos um tempo de aceleração tecnológica, proclamando-se um mundo novo para a educação, como se exigia na década de 1960, sobretudo a partir do lançamento do satélite Sputnik, em 1957, com repercussões profundas: a tónica passou dos conteúdos para os métodos de pensamento, isto é, o aprender a aprender liderou a renovação pedagógica, associada a Jerome Bruner e à sua obra O Processo da Educação, cujo subtítulo   Uma discussão aprofundada sobre a educação escolar, abrindo novos caminhos para aprender e ensinar  bem poderia ser uma publicação dos dias de hoje.

Nesse tempo, como no que hoje enfrentamos, e no qual nos posicionamos perante as consequências da IA na educação, era necessário repensar a natureza do ato de aprender e ensinar. De acordo com a Gravissimum Educationis, a missão insubstituível da escola afirma-se precisamente na sua capacidade de integrar a dimensão cognitiva, cultural, axiológica e profissional, acolhendo alunos de índole e condições diferentes, promovendo a compreensão mútua e a participação ativa da comunidade humana.

Paulo VI falava da grande responsabilidade de todos os que têm o dever de educar, com particular incidência nos professores, que exige especiais qualidades de inteligência, uma preparação esmeradíssima e uma vontade sempre pronta à renovação e adaptação. De facto, nada parece ter mudado desde essas ideias, sobretudo quando o professor enfrenta turmas mais heterogéneas, contextos mais complexos, exigências crescentes, não havendo tecnologia que altere a natureza humana da relação pedagógica, que é a base da educação.

Leão XIV, em maio de 2026, no encontro internacional Mapas de Esperança para uma Agenda Educativa Regional, promovido pela Organização de Estados Ibero-Americanos, utilizou duas metáforas bem elucidativas, aliás de acordo com a carta apostólica Traçar Novos Mapas de Esperança, de outubro de 2025[2], por ocasião do LX aniversário da declaração conciliar de Paulo VI.

A primeira olha para a educação como arte de tecer a comunidade, pois nenhum fio por si só basta para criar o desenho. Só o entrelaçado paciente gera beleza e resistência. Cada fio conserva a sua própria cor, mas adquire significado dentro de uma trama mais ampla.  Sendo uma arte de tecer um encontro pedagógico, a educação redescobrir-se-á ao ultrapassar a pedagogia técnica, a aquisição de meras competências e a construção de individualismos isolados, na medida em que aprender não é acumular conhecimentos e dominar competências, é pertencer.

Outra metáfora relaciona-se com a crise das constelações interiores. Os povos antigos olhavam para o céu para ler as constelações, e nelas encontravam orientação e aprendiam a reconhecer o ritmo das estações e o tempo para as atividades agrícolas. Hoje, como no passado, é necessário voltar a levantar os olhos para a procura de significado ou de um sentido de vivência que nenhum instrumento tecnológico, por mais sofisticado que seja, poderá assegurar, porque cada aluno não é um algoritmo, suscetível de ser reduzido a um dado estatístico, a um desempenho e, por conseguinte, a uma competitividade exasperada que gera ansiedade, desorientação e desespero, como revelam muitos estudos sobre a saúde mental dos jovens. E quando se traçam novos e urgentes mapas, a educação tem de assumir um papel mais dinâmico, integrador e inclusivo.

Continua...  https://www.publico.pt/2026/06/15/impar/opiniao/educar-nao-otimizar-2178242





[1]https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decl_19651028_gravissimum-educationis_po.html

[2]https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/apost_letters/documents/20251027-disegnare-nuove-mappe.html