junho 11, 2026

Pedras com memória

 

No início do século XX, o arqueólogo Félix Alves Pereira percorreu os montes de Paredes de Coura com caderneta e lápis na mão. O resultado ficou registado n'O Arqueólogo Português, em 1924, e constitui um dos primeiros testemunhos científicos sobre um sítio que, um século depois, continua a surpreender: o Monte da Cividade, na freguesia de Cossourado, concelho de Paredes de Coura.

Foi ali que Alves Pereira se demorou mais horas. A norte do planalto, identificou cinco ou seis mamoas, submergidas pelo tempo. Mas foi nas fragas que a visita revelou o seu maior interesse. À beira do caminho, uma laje guarda uma escavação circular de metro e meio de diâmetro: uma inscultura, hoje chamada petróglifo, cuidadosamente medida e desenhada. Ao lado, uma calote em relevo talhada na própria rocha, duas pequenas covinhas voltadas a sul e um disco mamilar com cavidade central. Mais à frente, novas gravuras; depois, mais pias; junto ao muro da bouça; perto do cruzeiro, nova calote. Enigmas arqueológicos, escreveu o arqueólogo, sem esconder o assombro, e isto apesar do seu vasto conhecimento.

A poente do monte, duas ordens de muralhas derruídas denunciam uma antiga ocupação fortificada, ou seja, uma Cividade. Perto dali passava a estrada romana, de Braga para Astorga.

Há, porém, um momento do ano em que este local adquire uma dimensão diferente. No solstício de verão, quando o sol atinge o ponto mais alto da sua trajetória e a luz demora mais tempo a esmorecer, os rochedos de Cossourado parecem despertar. As covinhas e as calotes captam a afetiva luz do entardecer e projetam sombras que percorrem os sulcos, como se alguém ontem os tivesse traçado na sua mais profunda sabedoria.

É nesse instante que o passado e o presente se tocam pela simbologia do fogo, que serve, segundo dados do evento, para «celebrar ancestralmente a união entre o Pai Sol e a Mãe Terra.» Tal fascínio pela contemplação faz-se sentir no mesmo espaço e nas mesmas pedras, em junho, num gesto de comunhão que atravessa o tempo sem precisar de palavras.

Cem anos depois da visita de Félix Alves Pereira, os vestígios da Cividade continuam ali, pacientes, com as suas marcas gravadas por mãos que não sabemos nomear. A crónica que o arqueólogo escreveu é, ela própria, como o leitor pode constatar no blogue acima referido. um monumento único: o registo de um cientista que soube olhar para o chão e ver o que outros não viam, e que nos deixou a tarefa mais antiga do mundo: olhar para o céu, que nos torna infinitos, e baixar os olhos para a terra que fragilmente pisamos, em memória.