No início do
século XX, o arqueólogo Félix Alves Pereira percorreu os montes de Paredes de
Coura com caderneta e lápis na mão. O resultado ficou registado n'O
Arqueólogo Português, em 1924, e constitui um dos primeiros testemunhos
científicos sobre um sítio que, um século depois, continua a surpreender: o Monte
da Cividade, na freguesia de Cossourado, concelho de Paredes de Coura.
Foi ali que
Alves Pereira se demorou mais horas. A norte do planalto, identificou cinco ou
seis mamoas, submergidas pelo tempo. Mas foi nas fragas que a visita revelou o
seu maior interesse. À beira do caminho, uma laje guarda uma escavação circular
de metro e meio de diâmetro: uma inscultura, hoje chamada petróglifo,
cuidadosamente medida e desenhada. Ao lado, uma calote em relevo talhada na
própria rocha, duas pequenas covinhas voltadas a sul e um disco mamilar com
cavidade central. Mais à frente, novas gravuras; depois, mais pias; junto ao
muro da bouça; perto do cruzeiro, nova calote. Enigmas arqueológicos, escreveu
o arqueólogo, sem esconder o assombro, e isto apesar do seu vasto conhecimento.
A poente do
monte, duas ordens de muralhas derruídas denunciam uma antiga ocupação
fortificada, ou seja, uma Cividade. Perto dali passava a estrada romana,
de Braga para Astorga.
Há, porém,
um momento do ano em que este local adquire uma dimensão diferente. No
solstício de verão, quando o sol atinge o ponto mais alto da sua trajetória e a
luz demora mais tempo a esmorecer, os rochedos de Cossourado parecem despertar.
As covinhas e as calotes captam a afetiva luz do entardecer e projetam sombras
que percorrem os sulcos, como se alguém ontem os tivesse traçado na sua mais
profunda sabedoria.
É
nesse instante que o passado e o presente se tocam pela simbologia do fogo, que
serve, segundo dados do evento, para «celebrar ancestralmente a união entre o
Pai Sol e a Mãe Terra.» Tal fascínio pela contemplação faz-se sentir no mesmo
espaço e nas mesmas pedras, em junho, num gesto de comunhão que atravessa o
tempo sem precisar de palavras.
Cem anos depois da visita de Félix Alves Pereira, os vestígios da Cividade continuam ali, pacientes, com as suas marcas gravadas por mãos que não sabemos nomear. A crónica que o arqueólogo escreveu é, ela própria, como o leitor pode constatar no blogue acima referido. um monumento único: o registo de um cientista que soube olhar para o chão e ver o que outros não viam, e que nos deixou a tarefa mais antiga do mundo: olhar para o céu, que nos torna infinitos, e baixar os olhos para a terra que fragilmente pisamos, em memória.
