Queixamo-nos
hoje do tempo que falta, do trabalho que cansa e do salário que não estica. São
queixas legítimas, mas convém, de quando em quando, medi-las contra o que
foram, nestas terras, as vidas de pessoas de quem nos antecedeu há quase oito séculos,
e das quais temos um registo escrito bem fidedigno.
Vivia-se
então, para a quase totalidade dos trabalhadores, numa condição de quase
escravatura. É aqui que nasce a discórdia na elaboração de um texto sobre as
Inquirições de 1258, em que, uma a uma, são descritas as paróquias, ou vilas,
ou freguesias da terra de Coyra.
O critério
proposto consistia em não usar a expressão “condição de escravatura”, mas a de
“sujeição social”, identificando-se a diferença no uso de palavras mais
melífluas. Insisti, e insisto, em dizer que tanto nesse tempo do século XIII, e
dos anteriores, assim como em tempos posteriores, como se comprova pelo texto
do foral, os moradores de Coura, nossos antepassados, viveram em condições
sub-humanas, quais presas fáceis dos algozes que estavam na parte superior da
pirâmide social, em virtude de o poder do rei ser fragmentado e fortemente
dependente dos tais senhores da terra.
Se a um
escravo direito algum era dado, o jugo social a que estavam sujeitos os
moradores era manifestamente próprio de um regime senhorial, em que a força
braçal era obrigatória quer nos campos, quer na edificação de fortificados, quer
ainda na integração de forças militares.
E pior
ainda: quando morriam, os seus familiares teriam de pagar uma taxa, ou imposto,
que lutuosa assim se chamava.
Não
estranha, por isso, que a esperança média de vida fosse ridiculamente baixa, à
qual também não escapavam os nobres, dependentes das mesmas situações de
miséria coletiva em que se vivia, particularmente ao nível da higiene pessoal e
da saúde, com pandemias e outras doenças mais.
Era deveras
doloroso o tempo de vida das pessoas do século XIII nas terras de Coyra,
e nas demais, sem exceção alguma, como se vivessem enclausurados numa cápsula
do tempo, que começou a abrir fendas, crescentemente mais largas, como as que
se verificaram no tempo das naus quinhentistas, da colonização pelos mares da
Índia e pela terra de Vera Cruz, da emigração abundante da segunda metade do
século XIX e da emigração jorrante de meados do século XX.
A distância
entre aquele tempo e o nosso é, afinal, bastante curta. E talvez seja esse o
verdadeiro proveito de olhar para trás: perceber que o que hoje temos por óbvio
custou, a quem nos precedeu, uma vida inteira de sujeição.
Navegamos, é
certo, numa frágil conquista.
