junho 02, 2026

Tempos são tempos...

 


Queixamo-nos hoje do tempo que falta, do trabalho que cansa e do salário que não estica. São queixas legítimas, mas convém, de quando em quando, medi-las contra o que foram, nestas terras, as vidas de pessoas de quem nos antecedeu há quase oito séculos, e das quais temos um registo escrito bem fidedigno.

Vivia-se então, para a quase totalidade dos trabalhadores, numa condição de quase escravatura. É aqui que nasce a discórdia na elaboração de um texto sobre as Inquirições de 1258, em que, uma a uma, são descritas as paróquias, ou vilas, ou freguesias da terra de Coyra.

O critério proposto consistia em não usar a expressão “condição de escravatura”, mas a de “sujeição social”, identificando-se a diferença no uso de palavras mais melífluas. Insisti, e insisto, em dizer que tanto nesse tempo do século XIII, e dos anteriores, assim como em tempos posteriores, como se comprova pelo texto do foral, os moradores de Coura, nossos antepassados, viveram em condições sub-humanas, quais presas fáceis dos algozes que estavam na parte superior da pirâmide social, em virtude de o poder do rei ser fragmentado e fortemente dependente dos tais senhores da terra.

Se a um escravo direito algum era dado, o jugo social a que estavam sujeitos os moradores era manifestamente próprio de um regime senhorial, em que a força braçal era obrigatória quer nos campos, quer na edificação de fortificados, quer ainda na integração de forças militares.

E pior ainda: quando morriam, os seus familiares teriam de pagar uma taxa, ou imposto, que lutuosa assim se chamava.

Não estranha, por isso, que a esperança média de vida fosse ridiculamente baixa, à qual também não escapavam os nobres, dependentes das mesmas situações de miséria coletiva em que se vivia, particularmente ao nível da higiene pessoal e da saúde, com pandemias e outras doenças mais.

Era deveras doloroso o tempo de vida das pessoas do século XIII nas terras de Coyra, e nas demais, sem exceção alguma, como se vivessem enclausurados numa cápsula do tempo, que começou a abrir fendas, crescentemente mais largas, como as que se verificaram no tempo das naus quinhentistas, da colonização pelos mares da Índia e pela terra de Vera Cruz, da emigração abundante da segunda metade do século XIX e da emigração jorrante de meados do século XX.

A distância entre aquele tempo e o nosso é, afinal, bastante curta. E talvez seja esse o verdadeiro proveito de olhar para trás: perceber que o que hoje temos por óbvio custou, a quem nos precedeu, uma vida inteira de sujeição.

Navegamos, é certo, numa frágil conquista.