
Blogue para discutir questões diversas, de preferência nos contextos português e brasileiro, não deixando de olhar para aspectos globais e regionais.
Genericamente,
a evolução do desempenho académico dos alunos no Teste PISA desde os primeiros
resultados (Leitura, 2000; Matemática, 2003; Ciências, 2006) até 2025 permite
identificar dois tempos diferentes: estabilidade dos resultados até 2015 e
queda contínua a partir daí, atingindo, em 2025, os valores mais baixos.
Entre
2015 e 2025, ainda nos resultados globais da OCDE, há uma descida efetiva do desempenho,
mais acentuada em Leitura e Matemática do que em Ciências, correspondendo, na
conversão habitual de 20 pontos por ano letivo, a uma regressão na aprendizagem
de meio ano em Ciências e de um ano a um ano e meio nas outras literacias.
Da
análise do posicionamento de cada país no ranking de 2025, em comparação com
2022, verifica-se que, nas três literacias e entre os casos com dados
comparáveis, a descida é o padrão dominante (70%), a par de subidas (22%) e de
manutenção do lugar (8%). Todavia, o cruzamento com a variação de pontuação
mostra que tal descida é maioritariamente real, e não o mero efeito da
reordenação da tabela, visto que, em 84% dos casos, os países perderam
simultaneamente posição e pontos.
E, em Portugal, o que sabemos desta comparação?
Os
resultados médios de 2025 foram inferiores aos de 2022 em Matemática e em
Leitura, e praticamente iguais em Ciências, situando-se Portugal próximo da
média da OCDE. Apesar da descida (3 pontos em Ciências, 12 em Matemática e 15
em Leitura), o posicionamento no ranking sobe um lugar em Ciências
(29.º), desce um em Matemática (30.º) e dois em Leitura (26.º), entre todos os
países e economias.
São
posições abaixo do quartil superior, mas consolidadas no terço superior global,
evidência que não será de desvalorizar, a não ser que Portugal tenha fixado
como meta entrar nos dez primeiros. Portugal está um lugar acima da média da
OCDE em Leitura e ao nível da média em Ciências, ficando quatro lugares abaixo
em Matemática. Face a estes resultados, se alcançar a média da OCDE for um
objetivo traçado no plano político, então estará já cumprido em Leitura e em
Ciências, faltando em Matemática.
Quanto aos resultados por níveis de proficiência, o que se sabe?
Lidos
para lá do lugar na tabela, os resultados contam uma história mais
desconfortável do que a do ranking: a de um país cujos alunos continuam
a querer aprender, mas em torno dos quais se acumulam vários obstáculos. O PISA
não apresenta apenas uma pontuação; distribui também os alunos por níveis de
proficiência. O nível 2 é a fasquia mínima (corresponde, por exemplo, a
identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada), ao passo que
os níveis 5 e 6 assinalam os alunos que aplicam, de forma autónoma, aquilo que sabem
a novas situações de aprendizagem.
Em
Ciências, 76% dos alunos portugueses cumprem o nível 2 ou superior, acima dos
74% da média da OCDE; em Leitura, 72%, contra 69%; em Matemática, 65%,
exatamente a média. Dito ao contrário, 24%, 28% e 35% ficam abaixo da fasquia
mínima, o que significa que, nas duas primeiras literacias, Portugal tem menos
alunos abaixo desse limiar do que a OCDE, que regista 26% e 31%,
respetivamente.
No
topo, a questão é outra: 6% dos alunos portugueses atingem os níveis 5 ou 6 em
Ciências, contra 7% da OCDE; 6% em Matemática, contra 8%; 3% em Leitura, contra
6%. Portugal não tem, assim, mais alunos abaixo do mínimo do que a média dos
países, o que tem é menos alunos de excelência.
A
este quadro acresce que, entre os alunos portugueses mais favorecidos e os mais
desfavorecidos, há 92 pontos de diferença em Ciências. A média da OCDE é de 85
pontos e tem vindo a estreitar-se, mantendo-se a diferença portuguesa
praticamente igual à de 2015. O estatuto socioeconómico explica 13% da variação
dos resultados (12% na média da OCDE) e 11% dos alunos desfavorecidos (12% na
média) obtiveram o nível máximo de desempenho, observando-se que a desigualdade
continua a ser uma questão problemática no
sistema educativo português.
Em
contrapartida, outros resultados de indicadores contextuais contrariam o
retrato habitual da desmotivação discente: 77% dos alunos dizem-se curiosos;
69% afirmam esforçar-se nas tarefas escolares; 20% consideram a escola uma
perda de tempo; e 82% pedem ajuda ao professor, valores que, na globalidade,
são mais favoráveis do que os da média da OCDE.
Em
Portugal, 14% dos alunos dizem ser vítimas de bullying algumas vezes por
mês ou mais (20% na média da OCDE), mas a prevalência aumentou entre 2022 e
2025, como na grande maioria dos países; por sua vez, a perceção dos alunos
quanto ao ambiente disciplinar melhorou desde 2015, situação ambígua quando
comparada com a dos diretores, que reportam um clima escolar mais negativo
desde 2022, e com os dados do TALIS, relativos aos professores.
Por
outro lado, Portugal continua a ter professores mais próximos dos alunos do que
a média da OCDE. Nas aulas de Ciências, e com valores acima da média da OCDE, entre
77% e 83% dos alunos dizem que o professor mostra interesse pela aprendizagem
de cada um, dá ajuda adicional e continua a explicar até os alunos
compreenderem.
Um
outro indicador contextual revela que 44% dos alunos frequentam escolas cujos
diretores afirmam que a falta de professores prejudica o ensino e, sobretudo,
64% estão em escolas cujos diretores identificam a falta de pessoal de apoio
como um obstáculo ao ensino, contra 39% na média da OCDE. É o valor mais
desalinhado de todos os dados do relatório para Portugal. Quando não há quem
faça o trabalho de acompanhamento, é o professor quem o assume, dedicando menos
atenção àquilo que é essencial na sua atividade pedagógica.
O
dado mais revelador não é sobre a escola. Entre 2022 e 2025, a percentagem de
alunos cujos pais lhes perguntam, pelo menos uma vez por semana, o que fizeram
na escola caiu de 84% para 73%, e a dos que discutem semanalmente com os pais
problemas que possam ter na escola passou de 69% para 53%, esta última com uma
quebra de 16 pontos percentuais, variação que nenhuma reforma curricular produz
em tão pouco tempo, pelo que, para além do domínio dos saberes escolares, são
as atitudes das famílias que se estão a alterar.
No
plano digital, 31% dos alunos referem que os colegas se distraem frequentemente
com dispositivos digitais na maioria das aulas de Ciências (28% na média da
OCDE), o que se associa a menos 12 pontos nos resultados, e apenas 25%
frequentam escolas onde os telemóveis não são permitidos no recinto escolar,
contra 49% na média da OCDE.
Será que sabemos o porquê da descida do desempenho educativo à escala
global?
Em
tempos de inovação tecnológica acelerada, seria de esperar que os resultados
estivessem a subir, mas estagnaram ou regrediram na maioria dos países.
Culpou-se
a pandemia de COVID-19, embora a tendência de descida lhe seja anterior. A OCDE
destaca um fator: o «ler à pressa», que leva os alunos a responder de forma
rápida e incorreta. Na sua base estarão a mudança da natureza da leitura por
efeito da digitalização e dos ecrãs, a diminuição da leitura por prazer e a
alteração das atitudes face à escola.
Em
Leitura, a maioria dos alunos de 15 anos da OCDE apresenta, em 2025, um
desempenho ao nível do que se espera aos 14 anos, e os sistemas com maiores
quebras nesta literacia sofreram descidas mais acentuadas em Matemática e em
Ciências, porque, como frisa a OCDE, a leitura é a porta por onde passa a
aprendizagem escolar. E a comparação com o PIRLS mostra que o declínio já era
visível aos 9-10 anos, o que desloca a intervenção para o 1.º ciclo e para o
ambiente familiar de leitura, e não tanto para o secundário.
Na
interpretação da OCDE, a principal medida está na recuperação da leitura
profunda e da atenção, uma vez que o declínio dos resultados académicos reflete
a falta de concentração dos alunos. É, pois, fundamental reconquistar os jovens
para a leitura, sabendo-se que é no ambiente familiar que se criam hábitos de
leitura.
Haverá verdadeiramente uma pista de saída face a uma tendência de
descida que começa a deixar de ser meramente conjuntural?
Com Homero... tudo começa
No autorretrato
exposto no Centro de Arte Moderna Gulbenkian, a figura de Almada Negreiros, de
traços surrealistas, carregados a carvão, coexiste com frases de autores aos
quais esteve intimamente ligado, tanto na literatura como nas artes.
E a primeira frase
pertence ao pintor francês Delacroix: «Homero é nos antigos a nascente donde
tudo saiu.»
Homero é, por si
mesmo, um autor enigmático na escrita da Odisseia e da Ilíada,
as suas duas obras principais, em que se sobrepõem vários autores ao longo do
tempo, incluindo os aedos que cantavam os seus versos, criando uma cadeia oral
de fixação dos textos fundadores da literatura, aos quais se juntam, no período
greco-latino, Virgílio, Horácio e Ovídio, este último autor de Metamorfoses,
para mim a fonte inesquecível que continua a inspirar autores, porque as suas
palavras a todos os tempos pertencem.
Acerca da Odisseia
e da sua questão autoral, Frederico Lourenço, tradutor exímio que nos brinda
com o rigor das fontes e das palavras, escreve o seguinte: «Apesar da sua idade
vetusta de dois mil e oitocentos anos, lê-se ainda hoje como se tivesse sido
composta ontem, ao nascer do sol.»
E compara-a a «uma Sé medieval, que sobre o
primeiro núcleo românico recebeu acrescentos góticos, manuelinos e outros», beleza
extraordinária que o mesmo reconhece, de resto, na Sé de Braga,
Depois da leitura da Odisseia,
feita há muitos anos, vi o filme do realizador Christopher Nolan. E gostei,
sinceramente, por mais que as cenas se demorem nas façanhas, quase divinas, de
Ulisses.
Saí do cinema a
pensar no autorretrato. O que Nolan faz com a luz, Almada fizera-o com o
carvão: não desenhou apenas um rosto, inundou-o de palavras alheias. As frases
que lhe atravessam a testa e o queixo são as dos autores que leu, e é por elas
que ele se dá a ver.
Não há, decerto,
maneira de nos representarmos sem convocar quem veio antes, ou mesmo quem
esteve na nascente das coisas.
A multiplicidade de
obras, autores, textos e imagens é, inelutavelmente, um rio de ideias que corre
dentro de nós, dando forma e relevo à criatividade, essa que se procura,
trabalha e aprende até à exaustão.
E o que julgamos ser
a nossa cara é, quase sempre, o rosto dos outros a transparecer no nosso,
porque a nascente não seca: apenas muda de leito, criando um encantamento
cúmplice que confere diversidade à identidade pessoal, seja ela de um pintor ou
de um escritor.
https://www.publico.pt/2026/06/15/impar/opiniao/educar-nao-otimizar-2178242
A
Magnifica Humanitas, carta encíclica Sobre a salvaguarda da pessoa
humana na Era da Inteligência Artificial, aborda uma questão que interpela a
essência do ser humano na sua irredutibilidade à tecnologia.
É comummente
proclamado que a inteligência artificial (IA) provoca uma revolução tanto no
conhecimento quanto nas formas de aprender e ensinar, mesmo
que as recomendações insistam no seu uso como um meio, na linha da distinção
que Heidegger estabelece entre tecnologia instrumental e tecnologia como
finalidade.
Já em 1965,
o Papa Paulo VI, na declaração Gravissimum
Educationis[1],
identificava
a educação dos jovens e a formação contínua dos adultos como uma circunstância
incontornável e fundamental. O ponto de partida do documento é a dignidade da
pessoa humana, consagrando que todo o ser humano, independentemente da sua
origem, condição ou idade, tem direito a uma educação que corresponda ao seu
fim, acomodada à sua índole, cultura e tradições. Ou seja, é um direito que os
poderes públicos têm a obrigação de assegurar e proteger. A verdadeira
educação, dizia Paulo VI, orienta-se para a pessoa e para a comunidade, sendo esta
o coração de qualquer projeto de formação, pois educar não é transmitir
conhecimentos, pelo contrário, é acompanhar
o crescimento de um ser humano que aprende a ser responsável por si e pelo
mundo.
Mas o que
significa educar hoje?
Vivemos um
tempo de aceleração tecnológica, proclamando-se um mundo novo para a educação,
como se exigia na década de 1960, sobretudo a partir do lançamento do satélite Sputnik,
em 1957, com repercussões profundas: a tónica passou dos conteúdos para os métodos
de pensamento, isto é, o aprender a aprender liderou a renovação pedagógica,
associada a Jerome Bruner e à sua obra O Processo da Educação, cujo
subtítulo – Uma discussão aprofundada sobre a educação
escolar, abrindo novos caminhos para aprender e ensinar – bem poderia ser uma publicação dos dias de
hoje.
Nesse tempo,
como no que hoje enfrentamos, e no qual nos posicionamos perante as
consequências da IA na educação, era necessário repensar a natureza do ato de
aprender e ensinar. De acordo com a Gravissimum Educationis, a missão insubstituível da
escola afirma-se precisamente na sua capacidade de integrar a dimensão
cognitiva, cultural, axiológica e profissional, acolhendo alunos de índole e
condições diferentes, promovendo a compreensão mútua e a participação ativa da
comunidade humana.
Paulo
VI falava da grande responsabilidade de todos os que têm o dever de educar, com
particular incidência nos professores, que exige especiais qualidades de
inteligência, uma preparação esmeradíssima e uma vontade sempre pronta à
renovação e adaptação. De facto, nada parece ter mudado desde essas ideias,
sobretudo quando o professor enfrenta turmas mais heterogéneas, contextos mais
complexos, exigências crescentes, não havendo tecnologia que altere a natureza
humana da relação pedagógica, que é a base da educação.
Leão
XIV, em maio de 2026, no encontro internacional Mapas de Esperança para uma
Agenda Educativa Regional, promovido pela Organização de Estados
Ibero-Americanos, utilizou duas metáforas bem elucidativas, aliás de acordo com
a carta apostólica Traçar Novos Mapas de Esperança, de outubro de 2025[2],
por ocasião do LX aniversário da declaração conciliar de Paulo VI.
A primeira
olha para a educação como arte de tecer a comunidade, pois nenhum fio por si só
basta para criar o desenho. Só o entrelaçado paciente gera beleza e
resistência. Cada fio conserva a sua própria cor, mas adquire significado
dentro de uma trama mais ampla. Sendo
uma arte de tecer um encontro pedagógico, a educação redescobrir-se-á ao
ultrapassar a pedagogia técnica, a aquisição de meras competências e a
construção de individualismos isolados, na medida em que aprender não é
acumular conhecimentos e dominar competências, é pertencer.
Outra metáfora relaciona-se com a crise das constelações interiores. Os povos antigos olhavam para o céu para ler as constelações, e nelas encontravam orientação e aprendiam a reconhecer o ritmo das estações e o tempo para as atividades agrícolas. Hoje, como no passado, é necessário voltar a levantar os olhos para a procura de significado ou de um sentido de vivência que nenhum instrumento tecnológico, por mais sofisticado que seja, poderá assegurar, porque cada aluno não é um algoritmo, suscetível de ser reduzido a um dado estatístico, a um desempenho e, por conseguinte, a uma competitividade exasperada que gera ansiedade, desorientação e desespero, como revelam muitos estudos sobre a saúde mental dos jovens. E quando se traçam novos e urgentes mapas, a educação tem de assumir um papel mais dinâmico, integrador e inclusivo.
Continua... https://www.publico.pt/2026/06/15/impar/opiniao/educar-nao-otimizar-2178242
No início do
século XX, o arqueólogo Félix Alves Pereira percorreu os montes de Paredes de
Coura com caderneta e lápis na mão. O resultado ficou registado n'O
Arqueólogo Português, em 1924, e constitui um dos primeiros testemunhos
científicos sobre um sítio que, um século depois, continua a surpreender: o Monte
da Cividade, na freguesia de Cossourado, concelho de Paredes de Coura.
Foi ali que
Alves Pereira se demorou mais horas. A norte do planalto, identificou cinco ou
seis mamoas, submergidas pelo tempo. Mas foi nas fragas que a visita revelou o
seu maior interesse. À beira do caminho, uma laje guarda uma escavação circular
de metro e meio de diâmetro: uma inscultura, hoje chamada petróglifo,
cuidadosamente medida e desenhada. Ao lado, uma calote em relevo talhada na
própria rocha, duas pequenas covinhas voltadas a sul e um disco mamilar com
cavidade central. Mais à frente, novas gravuras; depois, mais pias; junto ao
muro da bouça; perto do cruzeiro, nova calote. Enigmas arqueológicos, escreveu
o arqueólogo, sem esconder o assombro, e isto apesar do seu vasto conhecimento.
A poente do
monte, duas ordens de muralhas derruídas denunciam uma antiga ocupação
fortificada, ou seja, uma Cividade. Perto dali passava a estrada romana,
de Braga para Astorga.
Há, porém,
um momento do ano em que este local adquire uma dimensão diferente. No
solstício de verão, quando o sol atinge o ponto mais alto da sua trajetória e a
luz demora mais tempo a esmorecer, os rochedos de Cossourado parecem despertar.
As covinhas e as calotes captam a afetiva luz do entardecer e projetam sombras
que percorrem os sulcos, como se alguém ontem os tivesse traçado na sua mais
profunda sabedoria.
É
nesse instante que o passado e o presente se tocam pela simbologia do fogo, que
serve, segundo dados do evento, para «celebrar ancestralmente a união entre o
Pai Sol e a Mãe Terra.» Tal fascínio pela contemplação faz-se sentir no mesmo
espaço e nas mesmas pedras, em junho, num gesto de comunhão que atravessa o
tempo sem precisar de palavras.
Cem anos depois da visita de Félix Alves Pereira, os vestígios da Cividade continuam ali, pacientes, com as suas marcas gravadas por mãos que não sabemos nomear. A crónica que o arqueólogo escreveu é, ela própria, como o leitor pode constatar no blogue acima referido. um monumento único: o registo de um cientista que soube olhar para o chão e ver o que outros não viam, e que nos deixou a tarefa mais antiga do mundo: olhar para o céu, que nos torna infinitos, e baixar os olhos para a terra que fragilmente pisamos, em memória.
Queixamo-nos
hoje do tempo que falta, do trabalho que cansa e do salário que não estica. São
queixas legítimas, mas convém, de quando em quando, medi-las contra o que
foram, nestas terras, as vidas de pessoas de quem nos antecedeu há quase oito séculos,
e das quais temos um registo escrito bem fidedigno.
Vivia-se
então, para a quase totalidade dos trabalhadores, numa condição de quase
escravatura. É aqui que nasce a discórdia na elaboração de um texto sobre as
Inquirições de 1258, em que, uma a uma, são descritas as paróquias, ou vilas,
ou freguesias da terra de Coyra.
O critério
proposto consistia em não usar a expressão “condição de escravatura”, mas a de
“sujeição social”, identificando-se a diferença no uso de palavras mais
melífluas. Insisti, e insisto, em dizer que tanto nesse tempo do século XIII, e
dos anteriores, assim como em tempos posteriores, como se comprova pelo texto
do foral, os moradores de Coura, nossos antepassados, viveram em condições
sub-humanas, quais presas fáceis dos algozes que estavam na parte superior da
pirâmide social, em virtude de o poder do rei ser fragmentado e fortemente
dependente dos tais senhores da terra.
Se a um
escravo direito algum era dado, o jugo social a que estavam sujeitos os
moradores era manifestamente próprio de um regime senhorial, em que a força
braçal era obrigatória quer nos campos, quer na edificação de fortificados, quer
ainda na integração de forças militares.
E pior
ainda: quando morriam, os seus familiares teriam de pagar uma taxa, ou imposto,
que lutuosa assim se chamava.
Não
estranha, por isso, que a esperança média de vida fosse ridiculamente baixa, à
qual também não escapavam os nobres, dependentes das mesmas situações de
miséria coletiva em que se vivia, particularmente ao nível da higiene pessoal e
da saúde, com pandemias e outras doenças mais.
Era deveras
doloroso o tempo de vida das pessoas do século XIII nas terras de Coyra,
e nas demais, sem exceção alguma, como se vivessem enclausurados numa cápsula
do tempo, que começou a abrir fendas, crescentemente mais largas, como as que
se verificaram no tempo das naus quinhentistas, da colonização pelos mares da
Índia e pela terra de Vera Cruz, da emigração abundante da segunda metade do
século XIX e da emigração jorrante de meados do século XX.
A distância
entre aquele tempo e o nosso é, afinal, bastante curta. E talvez seja esse o
verdadeiro proveito de olhar para trás: perceber que o que hoje temos por óbvio
custou, a quem nos precedeu, uma vida inteira de sujeição.
Navegamos, é
certo, numa frágil conquista.
https://www.publico.pt/2026/05/22/impar/opiniao/visao-finlandesa-escola-2045-2175175
Numa
visão projetada para 2045, a escola do ensino básico (organizada em dois
ciclos: do 1.º ao 6.º ano e do 7.º ao
9.º) é a instituição mais importante para o futuro da Finlândia, preparando os
jovens para as mudanças em curso e dotando-os da capacidade de transformar o
mundo e moldar a sociedade. Para esse efeito, é concebida como escola para a
vida, inserida numa forte comunidade educativa que repensa as novas competências
humanas e a profunda alteração provocada pela inteligência artificial (IA).
É
neste enquadramento que se inscreve o relatório Educação Básica 2045: Para a
Vida — Uma visão para a escola compreensiva finlandesa, publicado em 2026,
que apresenta uma visão construída a partir da participação de mais de 5 000
crianças, jovens e adultos de todo o país, sob a coordenação de um grupo de
trabalho nomeado pelo Ministério, em articulação com a Agência Nacional
Finlandesa para a Educação.
Como
ideia matriz, o relatório sustenta que as crises contemporâneas não podem ser
resolvidas apenas pela inovação tecnológica, exigindo, de igual modo, um sólido
desenvolvimento humano. É, por isso, crucial encontrar caminhos para atenuar a
polarização social, fortalecer a democracia, fazer um uso sensato das
tecnologias e viver dentro dos limites planetários, num cenário de
transformações globais aceleradas.
Mais
do que olhar para o que é preciso mudar, opta-se, de forma clara, por preservar
as forças que têm sustentado as competências e o bem-estar social, dado que a
Finlândia é reconhecida internacionalmente pela qualidade do seu sistema
educativo e por figurar entre os países mais felizes do mundo. Salvaguardam-se,
assim, a equidade, o desenvolvimento estável e cientificamente fundamentado da
educação e a forte confiança depositada nas escolas e nos seus professores.
E
de que modo a escola será afetada pelas transformações em curso, sobretudo pela
alteração da própria educação, no pressuposto de que os alunos, cidadãos do
futuro, terão um papel central na construção de uma sociedade democrática, no
fomento da inovação e na promoção de um modo de vida ecologicamente
sustentável?
Relativamente a esta questão, e conquanto a finalidade da
educação não seja a de prever o futuro, mas a de funcionar como uma bússola que
oriente numa direção clara e equilibrada, o relatório afasta-se de alterações
radicais e fragmentadas, insistindo na necessidade de manter o que funciona bem
no sistema educativo e, simultaneamente, de identificar as forças motrizes que
configuram as mudanças ao nível das escolas e da sociedade.
Numa breve síntese, são identificadas várias forças globais
que exigem uma redefinição deliberada da finalidade da educação e do papel da
escola: o avanço acelerado da tecnologia e a transformação do trabalho, com
destaque para o impacto disruptivo da IA; a crise da sustentabilidade ecológica
e económica, resultante das alterações climáticas, da perda de biodiversidade e
da pressão sobre os recursos; a crise da democracia e da participação, com a
perda de confiança nas instituições, a desinformação e o avanço de movimentos
autoritários; a crise do bem-estar e da saúde mental, em especial entre
crianças e jovens, associada à solidão e ao enfraquecimento das comunidades; a
polarização social e a erosão da coesão e da confiança, face às desigualdades
regionais e à segregação social; a fragmentação dos valores e da orientação
para o futuro; a segurança, a transformação da globalização e a incerteza
geopolítica; o declínio dos resultados de aprendizagem e a crescente
desigualdade educativa; a estrutura demográfica e os desafios associados ao
envelhecimento e à diminuição da população ativa; e a importância crescente da
mudança imprevisível.
É deste cenário que, com toda a probabilidade, emerge a
escola do amanhã como uma instituição central, com o objetivo de promover uma
formação ampla, uma vida que tenha sentido, a autonomia, o bem comum e a
esperança, focada ainda em três dimensões fundamentais.
A primeira é a vida com sentido: uma perspetiva da
aprendizagem que serve o propósito do desenvolvimento humano integral e em que
o bem-estar surge em relação recíproca com a aprendizagem, sendo ora condição
para aprender, ora consequência do próprio aprender.
A
segunda é a vida em comum: promover a participação, a inclusão, a
diferença e a convivência democrática. Nesta nova cultura escolar, os
professores e os demais intervenientes são particularmente valorizados, tal
como a relação pedagógica entre professor e aluno, que constitui o núcleo do
processo educativo. Reforça-se, de igual modo, a colaboração com as famílias,
indispensável numa sociedade cada vez mais diversificada, bem como o
conceito-chave de ecossistema de aprendizagem, o qual engloba uma rede de
atores e repensa as escolas como pontos de encontro abertos à comunidade,
prolongando atividades, hábitos e oportunidades de participação das crianças e
dos jovens para além do tempo letivo.
Por
último, a dimensão da vida no planeta, que integra a sustentabilidade
ecológica como fundamento ético transversal, projetado nos conteúdos
curriculares e nas práticas pedagógicas quotidianas. Mais do que ensinar
conteúdos ambientais, propõe-se desenvolver o pensamento sistémico, a capacidade
de agir coletivamente e uma relação afetiva e experiencial com a natureza.
(continua...) https://www.publico.pt/2026/05/22/impar/opiniao/visao-finlandesa-escola-2045-2175175
https://www.publico.pt/2026/04/21/impar/opiniao/conhecimento-conta-escola-2171046
O que se
ensina e aprende nas escolas portuguesas, públicas e privadas, tem estado,
desde a segunda metade do século XIX, circunscrito ao currículo nacional (prescrito,
oficial, formal e uniforme), ainda que existam margens de autonomia curricular
das escolas e de autonomia pedagógica dos professores.
Uma
das marcas mais visíveis desse currículo foi a definição de programas de
ensino, que passaram a regular, através de normativos, as atividades
pedagógicas em sala de aula, estruturando disciplinas, tempos letivos e
conteúdos dos ensinos básico e secundário.
Mais
recentemente, essa peça central foi substituída pelas chamadas aprendizagens
essenciais, no âmbito do Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho, e definidas
como o conjunto comum de conhecimentos, capacidades e atitudes que todos os
alunos devem adquirir em cada disciplina ou área, organizados de forma
estruturada, articulada e significativa.
Apesar de se
fundamentarem em conceções distintas de escola, currículo, ensino e
aprendizagem, que podem oscilar entre perspetivas mais fechadas ou mais
abertas, tanto os programas de ensino como as aprendizagens essenciais têm como
denominador comum a organização dos saberes por níveis, ciclos e anos de
escolaridade, bem como a identificação do referencial para a avaliação externa,
seja de natureza sumativa, através de exames que regulam classificações finais
e influenciam o acesso ao ensino superior, seja por meio de provas sem impacto
direto nas classificações dos alunos.
Na prática,
a gestão curricular resulta de uma seleção de conhecimento, habitualmente
estruturada em disciplinas, mas que pode igualmente assumir formas
interdisciplinares, projetos integrados ou abordagens centradas em problemas.
(…)
A
documentação medieval permite, ainda assim, acompanhar essa construção
identitária: em 1125 surge como Coira, em 1156 como Coyra e, em
1258, como terra de Coyra, integrada no julgado de Froião. Já no século
XVI, é novamente referida no foral, outorgado por D. Manuel I, por terra de
Coyra.
Esse foral
constitui um marco relevante na afirmação do concelho e poderá ser entendido
como o seu verdadeiro momento fundacional, sobretudo pela sua formalização
administrativa.
A data de 13
de abril de 1515, que consta do documento régio que cria o concelho de Coyra,
assume, por isso, particular relevância na consagração da autonomia de Paredes
de Coura. A designação atual consolidar-se-ia mais tarde, com a criação da
comarca, a 16 de abril de 1875.
Abril
concentra, assim, várias referências estruturantes para a história local, às
quais se junta ainda o 25 de Abril, já no contexto contemporâneo, associado à
organização do poder local democrático.
Importa, no
entanto, não dissociar este percurso institucional da realidade social da
época. Durante gerações, os courenses, maioritariamente lavradores, viveram sob
o domínio senhorial do visconde e dos seus descendentes, oriundos da casa dos
Lima, numa relação de dependência que, em certos casos, se aproximava de formas
de servidão, realidade esta que foi descrita pelo infestense Manuel da Cunha
Brandão em diversos números de A Voz de Coura.
O foral da terra
de Coyra fornece também informação relevante sobre a economia local,
nomeadamente ao nível da produção cerealífera e dos encargos a que estavam
sujeitos os moradores. Os pagamentos eram efetuados em alqueires de centeio,
pão-meado e milho miúdo, bem como em dinheiro (reais) e outros géneros, como
galinhas e frangões. Com base nesses dados, é possível estimar, ainda que de
forma aproximada, o montante global dos encargos anuais, que rondaria os 62
523,525 reais.
Neste
enquadramento, os 111 anos do município não devem ser entendidos como um
simples exercício de evocação do passado, mas como expressão de uma
continuidade histórica. Coira, Coyra, Coura e Paredes de
Coura traduzem, no essencial, uma mesma realidade territorial e
humana, cuja identidade, afirmada ao longo do tempo, dá sentido ao presente e,
a partir dele e da memória do passado, se projeta no futuro.
https://www.publico.pt/2026/03/04/impar/opiniao/tecnologia-escola-redes-sociais-2166781
Dirigidas
à escola, às famílias, aos decisores políticos e aos responsáveis das plataformas
digitais, as recomendações sublinham a urgência de repensar o tempo de
exposição aos ecrãs para proteger o desenvolvimento das crianças e jovens. A
mensagem é clara: a tecnologia apoia o desenvolvimento humano, mas
jamais o poderá substituir.
No uso
adequado de ecrãs, defende-se a progressividade em termos de faixas etárias,
nomeadamente: evitar a exposição até aos 3 anos; limitar e acompanhar entre os 3
e os 6 anos; estabelecer regras progressivas entre os 6 e os 11 anos; reforçar
a literacia digital entre os 12 e os 15 anos; e promover a responsabilidade
digital entre os 16 e os 18 anos.
Além
do referido faseamento etário, existem propostas de caráter transversal, como,
por exemplo, a definição da idade mínima de 15 anos para o acesso às redes
sociais, a proteção contra conteúdos impróprios, a disponibilização de
ferramentas parentais de fácil implementação, medidas públicas de
sensibilização, a responsabilização das empresas tecnológicas e campanhas
públicas de divulgação. Está em causa, bem evidenciado em Adolescência (minissérie
britânica de 2025), o comportamento disruptivo dos jovens face à
sua inserção nas redes sociais, num contexto de desresponsabilização social e
de quase total ausência de um controlo que seja mais educativo do que punitivo.
(…)
Uma das
obras literárias mais marcantes que li nos últimos tempos é,
inquestionavelmente, a biografia O Romance de Camilo, escrita por
Aquilino Ribeiro e publicada entre 1957 e 1961, com reedição, em 2025, pela
Bertrand Editora, com prefácio do Professor José Cândido de Oliveira Martins.
Há, pelo
menos, três ideias que me ficaram bem presentes – para além da leitura
aprazível que Aquilino Ribeiro proporciona, não fosse ele um dos principais
escultores da escrita literária, cinzelada palavra a palavra, nos seus mais
diferentes significados – sobre Camilo Castelo Branco, que «trabalhou dia e
noite como um moiro», e autor de Amor de Perdição: «É a novela mais bem
composta, mais portuguesa da lei, modelada de um só jacto, da literatura
nacional.»
A primeira
diz respeito à antinomia entre a excecionalidade do escritor, a cujo génio
Aquilino Ribeiro tece rasgados elogios, e a instabilidade do seu percurso
vivencial, pois «a febre literária trazia-o muitas vezes em levitação da vida
real».
Outra ideia
relaciona-se com o contexto geográfico, alfobre das suas muitas personagens,
como reconhece Aquilino Ribeiro: «A obra de Camilo Castelo Branco deixa ver à
sua espalda, particularmente, o Minho e Trás-os-Montes, com a comparsaria
própria dum país semi-bárbaro.»
Ora, é no
Alto Minho que Aquilino situa o romance A Casa Grande de Romarigães,
antecedendo a escrita dessa biografia sobre Camilo. O que ele diz sobre Camilo
também se lhe aplica: «O Minho foi para ele uma magnífica escola da linguagem e
até de ficção.»
A última
ideia que pretendo realçar, pelo espanto que me causa, é a faceta autodidata de
Camilo Castelo Branco, uma vez que, nos seus escassos estudos oficiais, «tudo
foi sempre movediço, instável, fugaz e imprevisto no deslize alucinado da sua
vida».
Aquilino Ribeiro
evoca ainda, com manifesta amargura, a falta de liberdade de expressão que
marcou longos anos da sua existência sob a ditadura, em contraste com o tempo usufruído
por Camilo, Castelo Branco, a propósito do qual escreve:
«Felizmente,
os seus tempos foram de liberdade e pode exercê-la tanto nos escritos, próprios
ou traduzidos, como nas polémicas contra tudo e contra todos. Ninguém se
arrojou, em nome de nenhum direito, a coarctar-lhe o uso da pena. Podia
proclamar: o poder menosprezou-me nos melhores dias da minha vida, mas não me
fechou numa masmorra; não pôs entraves à expressão do meu pensamento; deixou-me
falar segundo me pedia o entendimento ou a gana.»
«Nunca ele
compreenderia as gargalheiras no espírito, essas que obrigam o homem a derramar
sobre o próprio sangue o fel das suas convicções, acalcanhadas pela mordaça dos
ditadores.»
A
História não se repete, mas insiste em deixar sinais reconhecíveis através de
semelhanças que nos obrigam a pensar sobre o que, hoje em dia, está a acontecer
com o crescimento inquietante da extrema-direita a nível mundial.
Tudo
está em causa quando a democracia – que, pela sua abertura aos outros e à
diferença de opinião, é uma espécie de barriga de aluguer de regimes
autocráticos e verdadeiramente fascistas – é destruída por dentro, como se as
mudanças autoritárias fossem a solução que o povo deseja, e não propriamente aquilo
que os déspotas, suportados por interesses económicos, proclamam com o mais
gritante despudor e a mais cruel falsidade.
É
um facto, como o disse Karl Marx, em 1851: «a História repete-se, a primeira
vez como tragédia, a segunda como farsa.»
Mas
qual é a comédia dos nossos tempos nesse processo de destruição que começa por
ser uma opinião, transforma-se, depois, em lei e, por fim, integra a própria constituição?
Respondo
com uma das mais aclamadas peças de teatro da última década, em Portugal, com
texto e encenação de Tiago Rodrigues: Catarina e a Beleza de Matar Fascistas.
Assisti,
há duas semanas atrás, a este espetáculo no Theatro Circo, em Braga, e
tenho de confessar que a história não nos deixa indiferentes, dialogando
connosco e interpelando-nos à reflexão sobre os limites da tolerância.
Na
parte final da peça, depois de o fascista ter sido poupado à morte à luz de
valores humanistas e democráticos, segue-se um longo discurso, carregado de
ódio e de contradições. O que aí está
verdadeiramente em causa, pelo menos assim o senti, é o modo como toleramos a
intolerância, como se esta fizesse parte natural das nossas escolhas políticas.
Se
pararmos para pensar um pouco, as ideias xenófobas, que traçam a linha de
separação entre “Nós” e “Eles”, são apresentadas em defesa de valores
nacionalistas, salpicados de pseudovalores religiosos, num regresso saudosista
ao passado, mesmo que a História, afinal, não se repita.
No
final da peça, sente-se um murro no estômago, como se precisássemos de ser
alertados para os perigos que tais ideias originam, mais ainda quando,
facilmente, caímos na armadilha da irracionalidade.
É
aqui que tragédia e comédia se encontram.
Na
realidade, e tal como tem sido concebida desde meados do século XIX, ainda
atravessada por resquícios de matriz medieval e sustentada na autoridade
livresca do professor, a escola encontra-se, hoje, imersa no que tem vindo a
ser designado como transformação digital.
Trata-se de
um processo marcado por mudanças substantivas que incidem, primeiramente, sobre
o conhecimento e a sua organização curricular, depois, sobre a pedagogia e os
modos de aprender e, por fim, sobre a avaliação, se forem valorizados os três vetores
de análise da estrutura escolar, propostos por Basil Bernstein.
Estas e
outras transformações são analisadas no livro, de acesso aberto, Inteligência
Artificial e Educação no Sul Global[1], escrito como
resposta a um desafio lançado à compreensão das dinâmicas que se estabelecem
entre a IA e a educação em contextos específicos, sobretudo quando existem
restrições de recursos que tendem a aprofundar desigualdades já existentes,
quer nos vetores anteriormente referidos (currículo, pedagogia e avaliação),
quer no desenvolvimento profissional docente, na gestão escolar e na decisão
política.
https://www.publico.pt/2026/01/20/impar/opiniao/escola-inteligencia-artificial-promessas-desafios-2161723
https://www.publico.pt/2025/12/19/impar/opiniao/mundo-sala-aula-licoes-montaigne-2158204
Já
no capítulo “Do Pedantismo”, Michel de Montaigne aborda a educação a partir da crítica ao modelo escolástico,
insistindo mais na abordagem das coisas reais do que na retórica e criticando o
ensino que se destina a «encher a memória», deixando «a inteligência e a
consciência vazias».
Todavia, é
no capítulo “A Educação das Crianças” –
usa-se, neste texto, o termo
criança, pois, se comparado com os de aluno e discípulo, é o mais usado em
“Ensaios” – que o filósofo do humanismo renascentista expõe o seu pensamento
pedagógico, sobretudo na distinção entre
erudição e sabedoria e na valorização do juízo e da conversação como elementos
fundamentais de um nova maneira de ensinar, no seguimento dos «bons conselhos
de Platão», ou do «mestre Platão», para além dos ensinamentos de Sócrates, de
quem admira a ênfase no autoconhecimento e no saber ligado à prática, seguindo,
no entanto, uma perspetiva diferente do método socrático.
Se, em termos de currículo, Montaigne não
acrescenta nada de novo relativamente ao “Trivium” e ao “Quadrivium”, mormente
ao nível dos conteúdos, seguindo muito de perto as ideias de Platão, expressas
em “A República”, e condizentes com a valorização da Filosofia como
conhecimento básico da formação das crianças, independentemente das suas idades,
defende, contudo, uma mudança substantiva no modo de ensinar, argumentando que
a educação é útil para formar o juízo da criança, uma vez que “a sua educação,
o seu trabalho e o seu estudo visam somente formá-la».
Sem pretender entrar numa análise profunda do
modelo de educação que o filósofo propõe, é possível identificar algumas ideias
do seu pensamento pedagógico, que tem sido ora criticado, ora elogiado, sendo ainda
pertinente saber de que crianças fala Montaigne em “Ensaios.”
Quem ler a “A Educação das Crianças” é
confrontado com o elitismo de uma educação para a aristocracia, especificamente
para alguns («jovens de boas famílias», na medida em que «todo o fidalgo deve
ser educado à maneira de um cortesão»), e não propriamente para todos, cuja
declaração universal viria a ser consagrada em finais do século XX.
Apesar de se situar, na abordagem que faz da educação,
no campo das opiniões («Não tenho autoridade, ou o desejo para ser crido, e
sinto-me mal instruído para instruir alguém»; «a verdade é que não sei nada
sobre este assunto» ou «da maneira de criar e educar os filhos»), Montaigne
apresenta, porém, uma argumentação interessante sobre o estado da educação na
sociedade francesa do século XVI, com ênfase na crítica ao papel do professor e
ao modelo escolástico de educação.
Antes de tudo, é necessário analisar a perspetiva
de educação que Montaigne perfilha, sobretudo quando a liberta do estudo
exagerado dos livros, e da sua memorização, e a aproxima da ação, ou das «coisas
mais proveitosas» e práticas (a criança «recitará a sua lição tanto quanto a
praticará. Irá repeti-la nas suas acções»), conferindo-lhe, por conseguinte,
uma orientação utilitária, quiçá pragmática, como será dito séculos mais tarde,
associada a um conhecimento prático («a ciência é um grande ornamento e um
instrumento de uma utilidade maravilhosa»).
Neste sentido, e tendo como base
autores greco-latinos, assume uma noção de educação que está ligada, no campo
filosófico, ao ceticismo intelectual e à virtude moral e, numa dimensão
pedagógica, à autonomia dos aprendentes, e
não à mera memorização de saberes eruditos. Com efeito, afasta-se da mera acumulação de saberes oriundos
de textos canónicos, defendendo a utilidade social e prática da educação.
Mais sinteticamente: uma educação reflexiva, crítica e prática.
Como revela Montaigne, a aprendizagem da
criança ocorria, de um modo apressado, nos primeiros quinze ou dezasseis anos da
sua vida, devendo o resto à ação, perante a qual deveria demonstrar capacidade de
formar um juízo seu, associado ao entendimento e à conversação, em oposição à
«deplorável capacidade puramente livresca». É a busca desse juízo que despertará
na criança «uma curiosidade honesta de se informar acerca de todas as coisas», presente
quer na mentalidade renascentista, quer nos dias de hoje, quando a diferença
entre informação e conhecimento tende a esvaziar-se.
Como a educação deve ter uma orientação
utilitária, a criança tem de «abrir os olhos quando está em sociedade», tendo o
julgamento e a sinceridade para «emendar-se, abandonar uma má determinação no
ardor apaixonado de uma discussão», na medida em que o seu lugar de pertença,
como Sócrates respondeu, é o mundo. Daí que a diversidade desse «grande mundo» deva
ser o livro da criança, para que ela seja capaz de «viver em todas as nações e
em todas as sociedades”, ou seja, num mundo mais inclusivo, de acordo com a
agenda 2030 da ONU. Nada de mais atual se pode dizer de Montaigne, nomeadamente
ao nível de uma perspetiva que, sobremaneira, enfatiza a diversidade dos
lugares de educação, trocando a sala de aula fechada dos colégios que lhe eram
coevos pela sala de aula aberta ao mundo, em que atualmente as crianças vivem,
e no qual se assumirão como cidadãos globais, críticos e compreensivos.
É precisamente neste princípio que o pensamento
pedagógico de Montaigne se torna vanguardista, tanto mais quanto nos caminhos
da educação a desigualdade, a discriminação e a iniquidade são obstáculos significativos
para uma verdadeira compreensão do mundo, no sentido educacional que lhe
atribui Heidegger, na 2ª metade do século XX.
Na crítica que
faz à educação do seu tempo,
Montaigne apresenta um conjunto de orientações que derivam de várias lições, por
vezes sobrepostas e incongruentes, com ideias que transmitem uma educação que
tem no seu centro a Filosofia, e da qual discorre a partir de uma visão
autobiográfica, com citação de várias passagens sobre a educação que recebeu a
partir de seu pai, dos seus mestres e do colégio, cujo diretor foi André de
Gouveia, um humanista português do Renascimento, de quem o ensaísta diz que
«foi incomparavelmente o melhor director da França». Para além da noção de
educação, já explorada no texto, há mais duas lições a destacar: uma sobre o professor
e a outra sobre o ensino, mesmo que insista em dizer que apresenta
«insignificantes e vulgares ideias pessoais».
E quais as novas maneiras de ensinar do professor
(ou do mestre ou do preceptor, de acordo com os termos que aparecem no texto)?
É sobre o papel do professor que o contributo
de Montaigne se sobreleva ainda mais, principalmente no modo como exerce a sua
influência na educação das crianças. Por isso, coloca na escolha do professor todo
o êxito da educação das crianças, afirmando que deve ser mais sensato do que
erudito, e que tenha «antes a cabeça bem formada do que bem cheia», para além do
seu valor moral e da sua inteligência, comportando-se «no exercício do cargo de
uma maneira nova». Compete-lhe, assim, colocar a criança «na pista das coisas,
levando-a a avaliá-las, a escolhê-las e a distingui-las por si mesmo, por vezes
sendo ele a abrir-lhe o caminho, outras dando-lhe a liberdade de o fazer».
Será ainda alguém que conhece bem o método socrático,
deixando falar a criança, com toda a autonomia que esta deve ter na conversação
pedagógica, exemplificando com uma citação de Cícero: «a autoridade daqueles
que ensinam é, com frequência, um obstáculo para aqueles que aprendem». Sem
enunciar de forma clara a proposta de Sócrates, Montaigne defende-a no uso da dúvida
face à aprendizagem, na discussão em torno de saberes, não num sentido rigoroso
como o método socrático pressupõe, mas focando o autoconhecimento, a subjetividade
e a experiência que uma criança pode explorar na sua própria aprendizagem.
É também
neste ponto que se destaca outra ideia muito poderosa de Montaigne, com o
argumento de que ensinar é uma conversação que exige ação, isto é, muito mais
do que o estudo dos livros e da sua memorização mecânica, a criança
experimentará, observará, julgará e formará um juízo que será seu, e que lhe dá
a capacidade de pensar e agir, tal como
será posteriormente defendido, entre outros, por John Dewey, sobretudo no livro
“O Criança e o Currículo”, publicado em 1902.
Ainda no novo papel do professor, em vez de
“repetir as palavras da lição” deve explicar «o seu sentido e a sua substância»
à criança, avaliando o benefício que esta retira “não pelo testemunho da sua
memória, mas pelo da sua vida», já que não será colocada “numa cátedra a
debitar um discurso imposto».
Esta afirmação do autor sobre a autonomia da
criança tem em conta ideais expressas por Platão, Sócrates e Cícero, advogando-se
que aquele que aprende a formar o seu entendimento das coisas através da
conversação adquire um conhecimento mais
crítico, mesmo que, passados alguns
parágrafos do texto, defenda, aquilo que tem sido bastante criticado no seu
pensamento, que a autoridade do professor, «que deve ser suprema sobre a
criança, é interrompida e prejudicada pela presença dos pais», ou que não é
benéfico educar uma criança no regaço
dos pais», não sendo estes “capazes de punir os seus erros, nem de os ver
educar de um modo duro e perigoso, como é necessário».
E como deve ser uma lição para a aprendizagem
das crianças, segundo Montaigne?
A resposta é concisa: «a lição decorrerá ora
conversando, ora com a ajuda de livros; umas vezes, o preceptor irá facultar-lhe
[extractos] do próprio autor, adequados ao objectivo da sua instrução; outras,
irá dar-lhe o miolo e a substância já mastigados». E dito de um modo mais instrucional:
«Na lição que recomendo, o espírito encontrará algo que morder e com que se
alimentar. O fruto será incomparavelmente maior e também amadurecerá mais
cedo». Mas para que tal aconteça, defende que o ambiente da lição a que as
crianças são sujeitas deve ser o de «uma branda severidade», não lhes sendo
dado «somente horror e crueldade». Mesmo distanciando-se do despotismo pedagógico
baseado no “magister dixit”, o autor tem uma visão do seu tempo sobre a
disciplina com que as crianças devem ser tratadas no seu percurso escolar, não
as considerando como sujeitos, mas como participantes ativos em projetos de aprendizagem
moldados pelo seu futuro de adultos, apesar de evidenciar a subjetividade que ocorre
nessa conversação pedagógica.
Por fim, Montaigne dá uma lição sobre si mesmo
– e «sirva-se dela quem quiser» –, falando do modo como aprendeu Latim e Grego
(embora lhes faça uma breve crítica como saberes para as crianças que
frequentavam os colégios) e quanto à influência dos autores clássicos no estudo
das Letras, pois «o meu gosto pelos livros veio-me antes de mais do prazer
pelas histórias das Metamorfoses de Ovídio».
O essencial do pensamento pedagógico de
Montaigne está precisamente nas novas maneiras de ensinar, cujo método centrado
na conversação constitui uma fonte de motivação da educação das crianças, porque
jamais esta estará limitada a “criar burros carregados de livros». Sendo muito
problemático admitir que na sua aprendizagem há espaço para a severidade, mesmo
que se fale em finais do século XVI, da boa educação de uma criança resultará a
capacidade de esta entender o seu mundo, que lhe oferece outras salas de aula,
numa conversação crítica acerca dos saberes que será necessário desenvolver em
cada geração.