junho 02, 2026

Um salto até 2045

 

 

https://www.publico.pt/2026/05/22/impar/opiniao/visao-finlandesa-escola-2045-2175175

Numa visão projetada para 2045, a escola do ensino básico (organizada em dois ciclos:  do 1.º ao 6.º ano e do 7.º ao 9.º) é a instituição mais importante para o futuro da Finlândia, preparando os jovens para as mudanças em curso e dotando-os da capacidade de transformar o mundo e moldar a sociedade. Para esse efeito, é concebida como escola para a vida, inserida numa forte comunidade educativa que repensa as novas competências humanas e a profunda alteração provocada pela inteligência artificial (IA).

É neste enquadramento que se inscreve o relatório Educação Básica 2045: Para a Vida — Uma visão para a escola compreensiva finlandesa, publicado em 2026, que apresenta uma visão construída a partir da participação de mais de 5 000 crianças, jovens e adultos de todo o país, sob a coordenação de um grupo de trabalho nomeado pelo Ministério, em articulação com a Agência Nacional Finlandesa para a Educação.

Como ideia matriz, o relatório sustenta que as crises contemporâneas não podem ser resolvidas apenas pela inovação tecnológica, exigindo, de igual modo, um sólido desenvolvimento humano. É, por isso, crucial encontrar caminhos para atenuar a polarização social, fortalecer a democracia, fazer um uso sensato das tecnologias e viver dentro dos limites planetários, num cenário de transformações globais aceleradas.

Mais do que olhar para o que é preciso mudar, opta-se, de forma clara, por preservar as forças que têm sustentado as competências e o bem-estar social, dado que a Finlândia é reconhecida internacionalmente pela qualidade do seu sistema educativo e por figurar entre os países mais felizes do mundo. Salvaguardam-se, assim, a equidade, o desenvolvimento estável e cientificamente fundamentado da educação e a forte confiança depositada nas escolas e nos seus professores.

E de que modo a escola será afetada pelas transformações em curso, sobretudo pela alteração da própria educação, no pressuposto de que os alunos, cidadãos do futuro, terão um papel central na construção de uma sociedade democrática, no fomento da inovação e na promoção de um modo de vida ecologicamente sustentável?

Relativamente a esta questão, e conquanto a finalidade da educação não seja a de prever o futuro, mas a de funcionar como uma bússola que oriente numa direção clara e equilibrada, o relatório afasta-se de alterações radicais e fragmentadas, insistindo na necessidade de manter o que funciona bem no sistema educativo e, simultaneamente, de identificar as forças motrizes que configuram as mudanças ao nível das escolas e da sociedade.

Numa breve síntese, são identificadas várias forças globais que exigem uma redefinição deliberada da finalidade da educação e do papel da escola: o avanço acelerado da tecnologia e a transformação do trabalho, com destaque para o impacto disruptivo da IA; a crise da sustentabilidade ecológica e económica, resultante das alterações climáticas, da perda de biodiversidade e da pressão sobre os recursos; a crise da democracia e da participação, com a perda de confiança nas instituições, a desinformação e o avanço de movimentos autoritários; a crise do bem-estar e da saúde mental, em especial entre crianças e jovens, associada à solidão e ao enfraquecimento das comunidades; a polarização social e a erosão da coesão e da confiança, face às desigualdades regionais e à segregação social; a fragmentação dos valores e da orientação para o futuro; a segurança, a transformação da globalização e a incerteza geopolítica; o declínio dos resultados de aprendizagem e a crescente desigualdade educativa; a estrutura demográfica e os desafios associados ao envelhecimento e à diminuição da população ativa; e a importância crescente da mudança imprevisível.

É deste cenário que, com toda a probabilidade, emerge a escola do amanhã como uma instituição central, com o objetivo de promover uma formação ampla, uma vida que tenha sentido, a autonomia, o bem comum e a esperança, focada ainda em três dimensões fundamentais.

A primeira é a vida com sentido: uma perspetiva da aprendizagem que serve o propósito do desenvolvimento humano integral e em que o bem-estar surge em relação recíproca com a aprendizagem, sendo ora condição para aprender, ora consequência do próprio aprender.

A segunda é a vida em comum: promover a participação, a inclusão, a diferença e a convivência democrática. Nesta nova cultura escolar, os professores e os demais intervenientes são particularmente valorizados, tal como a relação pedagógica entre professor e aluno, que constitui o núcleo do processo educativo. Reforça-se, de igual modo, a colaboração com as famílias, indispensável numa sociedade cada vez mais diversificada, bem como o conceito-chave de ecossistema de aprendizagem, o qual engloba uma rede de atores e repensa as escolas como pontos de encontro abertos à comunidade, prolongando atividades, hábitos e oportunidades de participação das crianças e dos jovens para além do tempo letivo.

Por último, a dimensão da vida no planeta, que integra a sustentabilidade ecológica como fundamento ético transversal, projetado nos conteúdos curriculares e nas práticas pedagógicas quotidianas. Mais do que ensinar conteúdos ambientais, propõe-se desenvolver o pensamento sistémico, a capacidade de agir coletivamente e uma relação afetiva e experiencial com a natureza. 

(continua...) https://www.publico.pt/2026/05/22/impar/opiniao/visao-finlandesa-escola-2045-2175175