setembro 24, 2026

Quitéria, a jovem

 

PISA 2025: imperioso reconquistar hábitos de leitura

 

Genericamente, a evolução do desempenho académico dos alunos no Teste PISA desde os primeiros resultados (Leitura, 2000; Matemática, 2003; Ciências, 2006) até 2025 permite identificar dois tempos diferentes: estabilidade dos resultados até 2015 e queda contínua a partir daí, atingindo, em 2025, os valores mais baixos.

Entre 2015 e 2025, ainda nos resultados globais da OCDE, há uma descida efetiva do desempenho, mais acentuada em Leitura e Matemática do que em Ciências, correspondendo, na conversão habitual de 20 pontos por ano letivo, a uma regressão na aprendizagem de meio ano em Ciências e de um ano a um ano e meio nas outras literacias.

Da análise do posicionamento de cada país no ranking de 2025, em comparação com 2022, verifica-se que, nas três literacias e entre os casos com dados comparáveis, a descida é o padrão dominante (70%), a par de subidas (22%) e de manutenção do lugar (8%). Todavia, o cruzamento com a variação de pontuação mostra que tal descida é maioritariamente real, e não o mero efeito da reordenação da tabela, visto que, em 84% dos casos, os países perderam simultaneamente posição e pontos.

E, em Portugal, o que sabemos desta comparação?

Os resultados médios de 2025 foram inferiores aos de 2022 em Matemática e em Leitura, e praticamente iguais em Ciências, situando-se Portugal próximo da média da OCDE. Apesar da descida (3 pontos em Ciências, 12 em Matemática e 15 em Leitura), o posicionamento no ranking sobe um lugar em Ciências (29.º), desce um em Matemática (30.º) e dois em Leitura (26.º), entre todos os países e economias.

São posições abaixo do quartil superior, mas consolidadas no terço superior global, evidência que não será de desvalorizar, a não ser que Portugal tenha fixado como meta entrar nos dez primeiros. Portugal está um lugar acima da média da OCDE em Leitura e ao nível da média em Ciências, ficando quatro lugares abaixo em Matemática. Face a estes resultados, se alcançar a média da OCDE for um objetivo traçado no plano político, então estará já cumprido em Leitura e em Ciências, faltando em Matemática.

Quanto aos resultados por níveis de proficiência, o que se sabe?

Lidos para lá do lugar na tabela, os resultados contam uma história mais desconfortável do que a do ranking: a de um país cujos alunos continuam a querer aprender, mas em torno dos quais se acumulam vários obstáculos. O PISA não apresenta apenas uma pontuação; distribui também os alunos por níveis de proficiência. O nível 2 é a fasquia mínima (corresponde, por exemplo, a identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada), ao passo que os níveis 5 e 6 assinalam os alunos que aplicam, de forma autónoma, aquilo que sabem a novas situações de aprendizagem.

Em Ciências, 76% dos alunos portugueses cumprem o nível 2 ou superior, acima dos 74% da média da OCDE; em Leitura, 72%, contra 69%; em Matemática, 65%, exatamente a média. Dito ao contrário, 24%, 28% e 35% ficam abaixo da fasquia mínima, o que significa que, nas duas primeiras literacias, Portugal tem menos alunos abaixo desse limiar do que a OCDE, que regista 26% e 31%, respetivamente.

No topo, a questão é outra: 6% dos alunos portugueses atingem os níveis 5 ou 6 em Ciências, contra 7% da OCDE; 6% em Matemática, contra 8%; 3% em Leitura, contra 6%. Portugal não tem, assim, mais alunos abaixo do mínimo do que a média dos países, o que tem é menos alunos de excelência.

A este quadro acresce que, entre os alunos portugueses mais favorecidos e os mais desfavorecidos, há 92 pontos de diferença em Ciências. A média da OCDE é de 85 pontos e tem vindo a estreitar-se, mantendo-se a diferença portuguesa praticamente igual à de 2015. O estatuto socioeconómico explica 13% da variação dos resultados (12% na média da OCDE) e 11% dos alunos desfavorecidos (12% na média) obtiveram o nível máximo de desempenho, observando-se que a desigualdade continua a ser uma questão problemática  no sistema educativo português.

Em contrapartida, outros resultados de indicadores contextuais contrariam o retrato habitual da desmotivação discente: 77% dos alunos dizem-se curiosos; 69% afirmam esforçar-se nas tarefas escolares; 20% consideram a escola uma perda de tempo; e 82% pedem ajuda ao professor, valores que, na globalidade, são mais favoráveis do que os da média da OCDE.

Em Portugal, 14% dos alunos dizem ser vítimas de bullying algumas vezes por mês ou mais (20% na média da OCDE), mas a prevalência aumentou entre 2022 e 2025, como na grande maioria dos países; por sua vez, a perceção dos alunos quanto ao ambiente disciplinar melhorou desde 2015, situação ambígua quando comparada com a dos diretores, que reportam um clima escolar mais negativo desde 2022, e com os dados do TALIS, relativos aos professores.

Por outro lado, Portugal continua a ter professores mais próximos dos alunos do que a média da OCDE. Nas aulas de Ciências, e com valores acima da média da OCDE, entre 77% e 83% dos alunos dizem que o professor mostra interesse pela aprendizagem de cada um, dá ajuda adicional e continua a explicar até os alunos compreenderem.

Um outro indicador contextual revela que 44% dos alunos frequentam escolas cujos diretores afirmam que a falta de professores prejudica o ensino e, sobretudo, 64% estão em escolas cujos diretores identificam a falta de pessoal de apoio como um obstáculo ao ensino, contra 39% na média da OCDE. É o valor mais desalinhado de todos os dados do relatório para Portugal. Quando não há quem faça o trabalho de acompanhamento, é o professor quem o assume, dedicando menos atenção àquilo que é essencial na sua atividade pedagógica.

O dado mais revelador não é sobre a escola. Entre 2022 e 2025, a percentagem de alunos cujos pais lhes perguntam, pelo menos uma vez por semana, o que fizeram na escola caiu de 84% para 73%, e a dos que discutem semanalmente com os pais problemas que possam ter na escola passou de 69% para 53%, esta última com uma quebra de 16 pontos percentuais, variação que nenhuma reforma curricular produz em tão pouco tempo, pelo que, para além do domínio dos saberes escolares, são as atitudes das famílias que se estão a alterar.

No plano digital, 31% dos alunos referem que os colegas se distraem frequentemente com dispositivos digitais na maioria das aulas de Ciências (28% na média da OCDE), o que se associa a menos 12 pontos nos resultados, e apenas 25% frequentam escolas onde os telemóveis não são permitidos no recinto escolar, contra 49% na média da OCDE.

Será que sabemos o porquê da descida do desempenho educativo à escala global?

Em tempos de inovação tecnológica acelerada, seria de esperar que os resultados estivessem a subir, mas estagnaram ou regrediram na maioria dos países.

Culpou-se a pandemia de COVID-19, embora a tendência de descida lhe seja anterior. A OCDE destaca um fator: o «ler à pressa», que leva os alunos a responder de forma rápida e incorreta. Na sua base estarão a mudança da natureza da leitura por efeito da digitalização e dos ecrãs, a diminuição da leitura por prazer e a alteração das atitudes face à escola.

Em Leitura, a maioria dos alunos de 15 anos da OCDE apresenta, em 2025, um desempenho ao nível do que se espera aos 14 anos, e os sistemas com maiores quebras nesta literacia sofreram descidas mais acentuadas em Matemática e em Ciências, porque, como frisa a OCDE, a leitura é a porta por onde passa a aprendizagem escolar. E a comparação com o PIRLS mostra que o declínio já era visível aos 9-10 anos, o que desloca a intervenção para o 1.º ciclo e para o ambiente familiar de leitura, e não tanto para o secundário.

Na interpretação da OCDE, a principal medida está na recuperação da leitura profunda e da atenção, uma vez que o declínio dos resultados académicos reflete a falta de concentração dos alunos. É, pois, fundamental reconquistar os jovens para a leitura, sabendo-se que é no ambiente familiar que se criam hábitos de leitura.

Haverá verdadeiramente uma pista de saída face a uma tendência de descida que começa a deixar de ser meramente conjuntural?

continua....

 https://www.publico.pt/2026/09/21/impar/opiniao/pisa-2025-imperioso-reconquistar-habitos-leitura-2188817


setembro 14, 2026

 Com Homero... tudo começa



No autorretrato exposto no Centro de Arte Moderna Gulbenkian, a figura de Almada Negreiros, de traços surrealistas, carregados a carvão, coexiste com frases de autores aos quais esteve intimamente ligado, tanto na literatura como nas artes.

E a primeira frase pertence ao pintor francês Delacroix: «Homero é nos antigos a nascente donde tudo saiu.»

Homero é, por si mesmo, um autor enigmático na escrita da Odisseia e da Ilíada, as suas duas obras principais, em que se sobrepõem vários autores ao longo do tempo, incluindo os aedos que cantavam os seus versos, criando uma cadeia oral de fixação dos textos fundadores da literatura, aos quais se juntam, no período greco-latino, Virgílio, Horácio e Ovídio, este último autor de Metamorfoses, para mim a fonte inesquecível que continua a inspirar autores, porque as suas palavras a todos os tempos pertencem.

Acerca da Odisseia e da sua questão autoral, Frederico Lourenço, tradutor exímio que nos brinda com o rigor das fontes e das palavras, escreve o seguinte: «Apesar da sua idade vetusta de dois mil e oitocentos anos, lê-se ainda hoje como se tivesse sido composta ontem, ao nascer do sol.»

 E compara-a a «uma Sé medieval, que sobre o primeiro núcleo românico recebeu acrescentos góticos, manuelinos e outros», beleza extraordinária que o mesmo reconhece, de resto, na Sé de Braga,

Depois da leitura da Odisseia, feita há muitos anos, vi o filme do realizador Christopher Nolan. E gostei, sinceramente, por mais que as cenas se demorem nas façanhas, quase divinas, de Ulisses.

Saí do cinema a pensar no autorretrato. O que Nolan faz com a luz, Almada fizera-o com o carvão: não desenhou apenas um rosto, inundou-o de palavras alheias. As frases que lhe atravessam a testa e o queixo são as dos autores que leu, e é por elas que ele se dá a ver.

Não há, decerto, maneira de nos representarmos sem convocar quem veio antes, ou mesmo quem esteve na nascente das coisas.

A multiplicidade de obras, autores, textos e imagens é, inelutavelmente, um rio de ideias que corre dentro de nós, dando forma e relevo à criatividade, essa que se procura, trabalha e aprende até à exaustão.

E o que julgamos ser a nossa cara é, quase sempre, o rosto dos outros a transparecer no nosso, porque a nascente não seca: apenas muda de leito, criando um encantamento cúmplice que confere diversidade à identidade pessoal, seja ela de um pintor ou de um escritor.