Genericamente,
a evolução do desempenho académico dos alunos no Teste PISA desde os primeiros
resultados (Leitura, 2000; Matemática, 2003; Ciências, 2006) até 2025 permite
identificar dois tempos diferentes: estabilidade dos resultados até 2015 e
queda contínua a partir daí, atingindo, em 2025, os valores mais baixos.
Entre
2015 e 2025, ainda nos resultados globais da OCDE, há uma descida efetiva do desempenho,
mais acentuada em Leitura e Matemática do que em Ciências, correspondendo, na
conversão habitual de 20 pontos por ano letivo, a uma regressão na aprendizagem
de meio ano em Ciências e de um ano a um ano e meio nas outras literacias.
Da
análise do posicionamento de cada país no ranking de 2025, em comparação com
2022, verifica-se que, nas três literacias e entre os casos com dados
comparáveis, a descida é o padrão dominante (70%), a par de subidas (22%) e de
manutenção do lugar (8%). Todavia, o cruzamento com a variação de pontuação
mostra que tal descida é maioritariamente real, e não o mero efeito da
reordenação da tabela, visto que, em 84% dos casos, os países perderam
simultaneamente posição e pontos.
E, em Portugal, o que sabemos desta comparação?
Os
resultados médios de 2025 foram inferiores aos de 2022 em Matemática e em
Leitura, e praticamente iguais em Ciências, situando-se Portugal próximo da
média da OCDE. Apesar da descida (3 pontos em Ciências, 12 em Matemática e 15
em Leitura), o posicionamento no ranking sobe um lugar em Ciências
(29.º), desce um em Matemática (30.º) e dois em Leitura (26.º), entre todos os
países e economias.
São
posições abaixo do quartil superior, mas consolidadas no terço superior global,
evidência que não será de desvalorizar, a não ser que Portugal tenha fixado
como meta entrar nos dez primeiros. Portugal está um lugar acima da média da
OCDE em Leitura e ao nível da média em Ciências, ficando quatro lugares abaixo
em Matemática. Face a estes resultados, se alcançar a média da OCDE for um
objetivo traçado no plano político, então estará já cumprido em Leitura e em
Ciências, faltando em Matemática.
Quanto aos resultados por níveis de proficiência, o que se sabe?
Lidos
para lá do lugar na tabela, os resultados contam uma história mais
desconfortável do que a do ranking: a de um país cujos alunos continuam
a querer aprender, mas em torno dos quais se acumulam vários obstáculos. O PISA
não apresenta apenas uma pontuação; distribui também os alunos por níveis de
proficiência. O nível 2 é a fasquia mínima (corresponde, por exemplo, a
identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada), ao passo que
os níveis 5 e 6 assinalam os alunos que aplicam, de forma autónoma, aquilo que sabem
a novas situações de aprendizagem.
Em
Ciências, 76% dos alunos portugueses cumprem o nível 2 ou superior, acima dos
74% da média da OCDE; em Leitura, 72%, contra 69%; em Matemática, 65%,
exatamente a média. Dito ao contrário, 24%, 28% e 35% ficam abaixo da fasquia
mínima, o que significa que, nas duas primeiras literacias, Portugal tem menos
alunos abaixo desse limiar do que a OCDE, que regista 26% e 31%,
respetivamente.
No
topo, a questão é outra: 6% dos alunos portugueses atingem os níveis 5 ou 6 em
Ciências, contra 7% da OCDE; 6% em Matemática, contra 8%; 3% em Leitura, contra
6%. Portugal não tem, assim, mais alunos abaixo do mínimo do que a média dos
países, o que tem é menos alunos de excelência.
A
este quadro acresce que, entre os alunos portugueses mais favorecidos e os mais
desfavorecidos, há 92 pontos de diferença em Ciências. A média da OCDE é de 85
pontos e tem vindo a estreitar-se, mantendo-se a diferença portuguesa
praticamente igual à de 2015. O estatuto socioeconómico explica 13% da variação
dos resultados (12% na média da OCDE) e 11% dos alunos desfavorecidos (12% na
média) obtiveram o nível máximo de desempenho, observando-se que a desigualdade
continua a ser uma questão problemática no
sistema educativo português.
Em
contrapartida, outros resultados de indicadores contextuais contrariam o
retrato habitual da desmotivação discente: 77% dos alunos dizem-se curiosos;
69% afirmam esforçar-se nas tarefas escolares; 20% consideram a escola uma
perda de tempo; e 82% pedem ajuda ao professor, valores que, na globalidade,
são mais favoráveis do que os da média da OCDE.
Em
Portugal, 14% dos alunos dizem ser vítimas de bullying algumas vezes por
mês ou mais (20% na média da OCDE), mas a prevalência aumentou entre 2022 e
2025, como na grande maioria dos países; por sua vez, a perceção dos alunos
quanto ao ambiente disciplinar melhorou desde 2015, situação ambígua quando
comparada com a dos diretores, que reportam um clima escolar mais negativo
desde 2022, e com os dados do TALIS, relativos aos professores.
Por
outro lado, Portugal continua a ter professores mais próximos dos alunos do que
a média da OCDE. Nas aulas de Ciências, e com valores acima da média da OCDE, entre
77% e 83% dos alunos dizem que o professor mostra interesse pela aprendizagem
de cada um, dá ajuda adicional e continua a explicar até os alunos
compreenderem.
Um
outro indicador contextual revela que 44% dos alunos frequentam escolas cujos
diretores afirmam que a falta de professores prejudica o ensino e, sobretudo,
64% estão em escolas cujos diretores identificam a falta de pessoal de apoio
como um obstáculo ao ensino, contra 39% na média da OCDE. É o valor mais
desalinhado de todos os dados do relatório para Portugal. Quando não há quem
faça o trabalho de acompanhamento, é o professor quem o assume, dedicando menos
atenção àquilo que é essencial na sua atividade pedagógica.
O
dado mais revelador não é sobre a escola. Entre 2022 e 2025, a percentagem de
alunos cujos pais lhes perguntam, pelo menos uma vez por semana, o que fizeram
na escola caiu de 84% para 73%, e a dos que discutem semanalmente com os pais
problemas que possam ter na escola passou de 69% para 53%, esta última com uma
quebra de 16 pontos percentuais, variação que nenhuma reforma curricular produz
em tão pouco tempo, pelo que, para além do domínio dos saberes escolares, são
as atitudes das famílias que se estão a alterar.
No
plano digital, 31% dos alunos referem que os colegas se distraem frequentemente
com dispositivos digitais na maioria das aulas de Ciências (28% na média da
OCDE), o que se associa a menos 12 pontos nos resultados, e apenas 25%
frequentam escolas onde os telemóveis não são permitidos no recinto escolar,
contra 49% na média da OCDE.
Será que sabemos o porquê da descida do desempenho educativo à escala
global?
Em
tempos de inovação tecnológica acelerada, seria de esperar que os resultados
estivessem a subir, mas estagnaram ou regrediram na maioria dos países.
Culpou-se
a pandemia de COVID-19, embora a tendência de descida lhe seja anterior. A OCDE
destaca um fator: o «ler à pressa», que leva os alunos a responder de forma
rápida e incorreta. Na sua base estarão a mudança da natureza da leitura por
efeito da digitalização e dos ecrãs, a diminuição da leitura por prazer e a
alteração das atitudes face à escola.
Em
Leitura, a maioria dos alunos de 15 anos da OCDE apresenta, em 2025, um
desempenho ao nível do que se espera aos 14 anos, e os sistemas com maiores
quebras nesta literacia sofreram descidas mais acentuadas em Matemática e em
Ciências, porque, como frisa a OCDE, a leitura é a porta por onde passa a
aprendizagem escolar. E a comparação com o PIRLS mostra que o declínio já era
visível aos 9-10 anos, o que desloca a intervenção para o 1.º ciclo e para o
ambiente familiar de leitura, e não tanto para o secundário.
Na
interpretação da OCDE, a principal medida está na recuperação da leitura
profunda e da atenção, uma vez que o declínio dos resultados académicos reflete
a falta de concentração dos alunos. É, pois, fundamental reconquistar os jovens
para a leitura, sabendo-se que é no ambiente familiar que se criam hábitos de
leitura.
Haverá verdadeiramente uma pista de saída face a uma tendência de
descida que começa a deixar de ser meramente conjuntural?

