Numa rua de
Braga, àquela hora em que a cidade parece suspensa, duas jovens caminhavam, em
passo moderado, ao lado de um homem de setenta e tais anos.
Não decifrei
o assunto da conversa.
Ouvi apenas
a resposta de uma delas, dita sem candura: «Esse é um conceito de antigamente.»
Podia ter
dito «essa é uma cena antiquada». O efeito seria o mesmo, ou seja, acentuar o
conflito de gerações, como se alguém ali representasse a prateleira do tempo
passado.
Heraclito
diria que ninguém se banha duas vezes na água do mesmo rio, e a jovem teria total
razão: as águas correm e os conceitos nas águas mergulham e desaparecem.
Mas o mesmo
Heraclito escreveu que nos mesmos rios entramos e não entramos, porque o que
muda não apaga o que permanece. Mantêm-se, porém, os conceitos, entretanto
explorados com sentidos diferentes, sendo aliás o que os jovens assumem no diálogo
intergeracional.
No diálogo
sobre a velhice, Cícero põe Catão a defender que os velhos já não fazem o que
fazem os jovens, mas realizam coisas maiores por intermédio do conselho, da
autoridade ou do juízo, pelo que a vida não se mede pelos anos, mas sim pela
prudência, sobretudo quando o tempo se torna numa personagem implacável.
Ao enunciar
o «antigamente», a jovem criou no diálogo um obstáculo, assumiu uma atitude de
afastamento ou colocou-se numa posição de superioridade.
O
«antigamente» problematiza, assim, numa conversa de ideias, algo que classifica
(mais negativa do que positivamente) sem a necessária compreensão dos tempos,
já que existir, no sentido heideggeriano, é receber uma herança, e recusá-la
por inteiro é ficar sem pontos de apoio que são necessários no erigir de pontes
de diálogo entre as gerações.
O homem da
tal conversa poderá não ter considerado despicienda a observação da jovem,
porque, decerto, foi compreensivo, não julgando esse momento de um encontro ou
de uma fala em que os jovens tendem a assumir (e bem) que são eles que reservam
o lugar no centro do futuro.
Não sei se o
homem ensaiou resposta algum. Passei, ouvi e continuei o meu caminho, mas talvez
esse homem do diálogo com as duas jovens tenha sorrido, com a serenidade de
quem já ouviu frases parecidas, sabendo, como Hegel, que a coruja de Minerva só
levanta voo ao entardecer, e que um dia aquela jovem ouvirá a mesma frase, dita
por alguém que ainda não nasceu.
O
antigamente não é o lugar onde as ideias morrem. É precisamente o lugar onde
nascem os futuros.
Braga, 16 de
outubro de 2026

