março 30, 2008

Parlatório em educação

Neste imenso parlatório que é a educação, e sobretudo a escola, todos falam e todos querem ter razão. Não há mais nada que divida tanto as pessoas, como se cada um de nós tivesse a solução miraculosa para o que deve ser feito.
A propósito dos exames, e dos seus resultados, da avaliação dos professores, do estatuto dos alunos, das imagens do YouTube, com as cenas pouco dignificantes de uma sala de aula portuguesa, enfim, a propósito de tudo o mais que uma escola pode albergar, escrevem-se rios de tinto, fazem-se programas televisivos e regressam os iluminados de sempre: os que pensam que o problema da escola reside nos teóricos da educação, naqueles que mais têm investigado os problemas educacionais e naqueles que jamais tiveram a responsabilidade máxima de um ministério da educação.
Os discursos, com a pretensão de seram politicamente correctos, contra a educação e seus profissionais não são mais do que discursos vazios, que se esgotam em ideias e palavras sem sentido, como se a escola dos dias de hoje pudesse ser comparada à escola de ontem, esta elitista, aquela democrática.
Por mais argumentos que se esbocem, há, pelo menos, uma dura realidade que não pode ser colocada de lado: a escola desta década e deste século é uma escola de massas, a sua frequência é um imperativo social e não um desejo privado.
Um exercício simples: quem decide em educação? Não são, decerto, os que investigam e produzem conhecimento em educação, mas os que trazem para a educação os seus modos de olhar os problemas, como se a sociologia, a engenharia e a economia, a matemática, a título de exemplo, fossem os únicos quadros teóricos para responder de forma adequada às questões com que a escola se debate.
Já que não se calam, e já que dispõem de tanto espaço nos media, por que não pô-los a governar?




março 18, 2008

Auto-estrada digital em Paredes de Coura

No seguimento da aprovação pelas Assembleias Municipais dos cinco concelhos do Alto-Minho, a Assembleia da Comunidade Intermunicipal do Vale do Minho, em reunião realizada na segunda semana de Março, aprovou a constituição de um empresa para a instalação e exploração da rede comunitária, ou seja, da rede de fibra óptica. Digamos que é a chegada da auto-estrada do mundo digital a Paredes de Coura. Consegue chegar primeiro que a de asfalto, perdida em projectos, em traçados, em avanços e recuos, enfim, na falta de prioridades políticas, estabelecidas pelo poder central, para os concelhos do Minho interior.
A rede digital permitirá que os courenses tenham acesso a uma série de serviços, de que os utentes de certas urbes já beneficiam, através do que é designado por cabo, incluindo televisão, telefone e Internet. Porém, e nestas coisas de inovações há os que ganham e os que perdem, nem todos os courenses serão beneficiados do mesmo modo, pois a tendência é para que, em primeiro lugar, sejam contactados os habitam zonas com maior densidade populacional. Depois, o mercado falará por si, já que esta empresa se encarrega unicamente de definir o traçado da ligação digital, competindo a outras empresas fazer a ligação final e fornecer o tão miraculoso sinal.
Não restam dúvidas que esta auto-estrada é da maior importância para o concelho de Paredes de Coura, mais ainda quando o mesmo sofre, de forma tão crónica, não só de uma doença territorial, conhecida, mais vulgarmente, pelo nome de interioridade.
Mesmo assim, e lembra-se que o capital social da referida empresa é misto, 49% privado e 51% público, embora o investimento seja mais privado (55%) que público (45%), o PSD local optou pela dúvida, pelo questionamento fútil e pelo cacarejar político.
Olhando para o que se passou na Câmara com os vereadores, que se abstiveram na votação, observa-se que a oposição não consegue estar do lado certo em momentos que são fundamentais para o concelho. Não creio que as suas dúvidas em relação a este projecto sejam as mais adequadas e não creio, de igual modo, que as suas posições correspondam às suas convicções. Estar do lado contrário também é saber quando se pode, e deve, estar do lado certo, votando-se favoravelmente o que é do interesse de todos, por mais divergências que existam.
Mas alguma vez um presidente de Câmara poderia rejeitar esta grande oportunidade, politicamente concertada no plano das actividades da Comunidade Intermunicipal do Vale do Minho?

É evidente que não. Todos os presidentes dos dez concelhos do Alto-Minho, porque a Comunidade Intermunicipal do Vale do Lima também enveredou por idêntica iniciativa, optaram pela auto-estrada digital e decidiram investir em algo que pode fazer a diferença para que a interioridade de que sofrem não seja também a dos info-excluídos.

março 07, 2008

Dignidade dos professores

Um dos meus alunos de mestrado ofereceu-me uma camisola, de cor preta, com estas palavras escritas: "estou de luto pela educação". E disse-me: "não é para usar na manifestação, apenas para a guardar porque relembrará um dia histórico".
O dia histórico é dia 8 de Março de 2008, que ficará como sendo o maior protesto alguma vez realizados pelos professores dos ensinos básico e secundário.
No meio de tantas tempestades políticas, e os ministros pensam que são os deuses sagrados que detêm o poder de semear discórdias, resta a dignidade dos professores, feridos no que mais directamentediz respeito ao seu trabalho diário e silencioso. A avaliação de um professor é algo que não pode ser reduzido a um amontoado de despachos e ofícios como se de um mero funcionário se tratasse. Para além da sua natureza administrativa, o professor detém o valor da sua acção educativa e pedagógica que exige filtros especiais para ser avaliado correcta e sensatamente.
O que falta neste modelo de avaliação é precisamente a sensatez. Se o ministério persistir nesta deriva burocrática de funcionarização dos professores, resta-me, somente, aceitar as críticas daqueles que dizem que o "eduquês" volta ao ser melhor estilo. Mas a ministra, convém dizer, é socióloga na área da sua especialização. A leitura dos clássicos que têm escrito sobre a teoria dos conflitos e sobre a noção de autoridade talvez fosse uma boa saída para todo este gigante e absurdo problema.
Olhando para o que se passa, parece que os professores já leram esses textos, sabendo que há manifestações que representam mais do que um simples protesto.

fevereiro 24, 2008

O erro...

Depois da mudança do ministro da Justiça, o foco de atenção vira-se para a ministra da Educação.
A fragilidade de um ministro aumenta quando as reformas são mais intensas e quando se procura reduzir os intervenientes a meros números para a estatística.
Mudar tem sido a palavra-chave da ministra e a montanha de normativos demonstra-o bem. Em 3 anos ninguém até hoje publicou tanta legislação.
Tudo se conjuga em função de dois objectivos prioritários: anular o abandono e aumentar o sucesso.
Se há uma concordância total com esta medida, o consenso já não é possível quando se pretende dizer que tudo o que existe é mau e que tudo está a ser feito pela primeira vez. É este o grande problema da educação, e pelo que se pode ver esta ministra persiste também no erro, querendo ignorar que há aspectos que devem ser mantidos e outros que devem ser mudados.
Mas sem os professores e educadores não há mudança possível. E o erro principal é esse mesmo.

janeiro 23, 2008

Mudanças nos órgãos autárquicos

Tem sido notícia, nos últimos dias, a discussão da proposta de alteração à lei eleitoral dos órgãos das autarquias locais. O anteprojecto foi aprovado na generalidade na Assembleia da República, dentro de um “processo negocial de convergência”, pelos grupos parlamentares do PS e PSD. Condenados a desentenderem-se em tantas assembleias municipais, os dois partidos estão, agora, forçados a impor um modelo que é explicado por palavras tão usuais nas políticas económicas e sociais, por exemplo, “eficiência”, “eficácia”, “efectiva responsabilização”.
Para que haja uma “mais directa relação entre os eleitos e os eleitores”, a arquitectura dos órgãos das autarquias locais é substantivamente modificada em dois aspectos essenciais. No primeiro, a personalização do órgão da Câmara Municipal. O Presidente terá, doravante, a possibilidade de escolher, sem que signifique o escalonamento dos vereadores numa lista separada, tal como acontecia até aqui, as pessoas da sua confiança.

Quer dizer: o Presidente da Câmara terá um leque muito maior de escolha, depois das eleições, dos seus vereadores, mas desde que esses elementos façam parte da lista eleita para a Assembleia Municipal. Além disso, o Presidente terá uma maioria mais confortável, pois a oposição ficará mais reduzida em termos de representatividade no órgão camarário. Entender-se-á, por isso, a discordância absoluta dos pequenos partidos, sobretudo quando tudo é mudado em nome da “governabilidade”, “eficiência” e “responsabilização”.

Quanto ao segundo, a Assembleia Municipal vê reforçados os seus poderes de fiscalização e controlo. O Presidente da Câmara, que será o candidato da lista que obtiver maior número de votos nas eleições, forma a sua equipa no contexto da Assembleia, podendo ocorrer neste espaço a sua destituição. Deixará não só de haver listas separadas para a Assembleia e para a Câmara, como também se processará de modo mais directo a interligação destes dois órgãos. Julgo que este aspecto é o que mais consenso pode gerar. O presidente da Assembleia, como o escrevi nestas crónicas, não tinha programa eleitoral próprio e, acima de tudo, dependia de um relacionamento de parceria, já que a agenda, por força de lei, era, essencialmente, determinada pelo exercício das competências da Câmara Municipal.

No entanto, há um ponto de muita discórdia: os Presidentes das Juntas de Freguesia deixarão, e sinceramente não acredito que esta proposta seja a mais correcta, de usar o direito de voto nas seguintes competências da Assembleia Municipal: “Acompanhar e fiscalizar a actividade da câmara municipal, dos serviços municipalizados, das fundações e das empresas municipais”; “aprovar as opções do plano e a proposta de orçamento, bem como as respectivas revisões”. Os Presidentes das Juntas de Freguesia seriam uma espécie de meios-deputados municipais, podendo decidir em 41 competências da Assembleia Municipal, sendo afastados de uma área que mais poder reivindicativo lhes confere. Neste ponto, a lei necessita de ser mudada, sobretudo quando se fala no texto de transparência e responsabilização.

janeiro 10, 2008

Pedagogia eleitoral

Quem se der ao trabalho, e há quem o faça por outros motivos, de analisar o que os candidatos dizem nas campanhas eleitorais e comparar, depois, com aquilo que fazem na qualidade de governantes, encontrará, decerto, muitos desfasamentos.
Em período eleitoral, o actual primeiro-ministro prometeu que referendaria o Tratado Constitucional, que muitos países europeus começavam a rejeitar. Agora, e com a poeira do tempo a sobrepor-se às promessas, é-nos dito que não, que tudo se decidirá pelo voto dos deputados e não pelo voto dos eleitores, pois fala-se de uma realidade bem diferente, ou seja, do Tratado de Lisboa.
Esta quebra é engenhosa porque só evidencia que os políticos têm argumentos suficientes para decidirem o que bem entendem, esquecendo-se que tudo muda, pelo que a promessa devia estar proibida. Há sempre algo de novo que os faz mudar.
Talvez faça sentido aprender com estes erros, mas qual é o candidato que tem tino na palavra?



janeiro 06, 2008

2008

2008 começou sob o signo do conflito.
Do conflito, tácito, entre as leituras do Presidente da República, que cheiram a reprimendas, e as certezas do Primeiro-ministro, gozando, ainda, a euforia da presidência da União Europeia.
Trata-se de um conflito em torno da educação (qualidade da formação e estatuto do aluno são, talvez, os pontos críticos), da justiça (soprada por ventos ineficazes) e da economia (a propósito dos salários mais elevados).
Todas as chamadas de atenção são úteis e sensatas, sobretudo quando a maioria parece dispensar as análises críticas. Mas como é possível que o Presidente da República se esqueça dos seus dez anos de governação?
Do conflito, explícito, entre os fumadores.
A lei do antibagismo está a ser aplicada desde o dia 1 de Janeiro. Como não fumador, e por opção, aplaudo por inteiro a medida. Sinto que tenho o direito a não fumar activamente o meu cigarro e o cigarro dos outros, de forma passiva.
No entanto, é deprimente ler os textos virulentos, totalmente despidos de razoabilidade, de pessoas como Vasco Pulido Valente, Miguel Sousa Tavares e António Barreto, quer no "Expresso", quer no "Público".
Perante estes textos ferozes, com comentários políticos despropositados, que fazer?
Decerto, fortalecer ainda mais a lei, e desse modo talvez se calem ou, pelo menos, possam aprender que o direito de fumar implica o direito de não fumar.


dezembro 18, 2007

Inglês

Por que razão o Inglês se torna cada vez mais uma língua franca?
Por que razão o Inglês é o mais utilizado como moeda da globalização?
É o Inglês a língua dominante na Internet?
Por que razão as pessoas de meios urbanos e de classe média aprendem cada vez mais o Inglês?
De que modo o Inglês está a tornar-se nativo?
Qual o peso do Português como língua mundial?

Bem, o melhor é ler o trabalho de Davi Graddol - English next. Why global english may mean the end of English as a foreign language
[http://www.britishcouncil.org/learning-resea
rch-english-next.pdf].

dezembro 09, 2007

Caminhos de Santiago

Autor - Carlos Silva
Edição: C. M. Paredes de Coura, Novembro de 2007

dezembro 08, 2007

Impressão digital

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros com outros olhos,
Não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
Uns outros descobrem cores
Do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
Onde passa tanta gente,
Uns vêem pedras pisadas,
Mas outros, gnomos e fadas
Num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
Querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.



António Gedeão

novembro 29, 2007

Metáfora

"Dão-nos uma cama de casal e depois só temos roupa de solteiro".
Ouvi, por estes dias, esta frase a alguém para descrever a realidade das escolas.
E aplica-se somente às nossas escolas?

novembro 19, 2007

Miguel Torga - Retrato

O meu perfil é duro como o perfil do mundo.
Quem adivinha nele a graça da poesia?
Pedra talhada a pico e sofrimento,
É um muro hostil à volta do pomar.
Lá dentro há frutos, há frescura, há quanto
Faz um poema doce e desejado:
Mas quem passa na rua
Nem sequer sonha que do outro lado
A paisagem da vida continua.

Escravidão do conhecimento

Em entrevista à "Pública", de 18 de Novembro de 2007, António Bracinha Vieira fala sobre o modo como nos tornámos escravos do incaracterístico, ou seja, mergulhados no fluxo da mercadoria, vivendo para consumir e agindo na base do individualismo.
Hoje em dia elimina-se tudo o que é complexo e defende-se a desvalorização do conhecimento no sentido mais humanista, privilegiando-se o conhecimento-mercadoria e, consequentemente, as ciências "que vão reforçar a indústria e aumentar os lucros das grandes sociedades".
E fala ainda:
"Para já, o apagar do Grego ou do Latim, da Filosofia e das Humanidades surgiu na lei, não estou a inventar esses factos, os governos começaram a decidir que não se ensinava isso nos liceus ou só em certos cursos. Os cursos de Filosofia e Humanidades estão a fechar porque não têm alunos, e porquê? Porque o dinheiro é o objectivo. Quem tem interesse em estudar Literatura quando isso não lhe resolve o problema da vida? É inútil em termos pecuniários".
E nesta voragem economicista do conhecimento, poderemos argumentar, há muitas outras áreas que não fazem parte de uma sociedade da informação e conhecimento, acentuando-se cada vez mais a tendência para a escola e universidade enveredarem por cursos predominantemente profissionalizantes.

novembro 14, 2007

No interior da escola...

Voltei a sentar-me nos bancos da escola primária, agora baptizada com o nome de 1º ciclo do ensino básico. Por mais pequeninas que sejam as cadeiras, consegui ficar à altura dos alunos e falar com eles sobre a escola que têm e sobre as actividades que realizam.
Sentem-se muito bem na escola e gostam desse seu mundo feito de exigências, de brincadeiras e de tudo o mais que as traquinices poderão deixar antever.
A sala de aula dos pequenotes é uma outra realidade: fichas de apoio, imagens, desenhos, mapas, jogos computadores, Internet ... sei lá o que mais dizer sobre as imensas e interessantes actividades que são usadas como recursos da aprendizagem.
Mas os pais querem mais: não gostam de uma escola isolada, pretendem que os seus educandos tenham todas as condições pedagógicas e exigem melhores instalações. Não acreditam jamais na escola de um professor, na sala da escrita e dos números, pois sentem que os tempos são outros e que o mundo deixou de caber num só manual.
Por mais estranho que pareça, os pais não estão presos à terriola da escola e lutam pelos centros escolares do 1º ciclo.
Lembrei-me, neste quadro, da situação de Paredes de Coura, um dos concelhos que promoveram com sucesso a concentração de escolas do 1º ciclo do ensino básico. Recordemos-nos dos medos iniciais e, sobretudo, da politização do caso. Seria a hora de balanços e, mais ainda, de admitir como é que os partidos são movidos mais por interesses meramente pessoais do que por ideias com futuro.
Mas os partidos políticos não gostam, nunca, dos seus passados, pois existem em função da promessa, a concretizar no futuro.

novembro 03, 2007

Ranking de quê?

Com base nos resultados dos exames nacionais (do 9º e 12º anos de escolaridade), os meios de comunicação social têm apresentado a lista seriadas de escolas (rankings). Trata-se de uma mera listagem de resultados e tudo o resto se pode inferir, como o têm feito muitos "opinions makers", sobre o modo de ser das escolas públicas e privadas.
Aceitando-se que são subsistemas diferentes, essencialmente marcados pela lógica do serviço público e pela lógica de mercado, respectivamente, aceitando-se que o currículo nacional é o mesmo, aceitando-se ainda que os professores têm idêntica formação, por que razão se insiste em comparar o que é obviamente diferente?
A diferença está nos alunos e seus contextos. Faça-se a experiência: mudem-se os alunos da primeira e última escolas, mudem-se os seus contextos e depois avaliem-se os resultados.
A mais-valia de uma escola privada está no seu poder de captar alunos e de seleccioná-los.
A pergunta incómoda: quantos alunos de escolas públicas podem frequentar as escolas privadas que os rankings colocam nos primeiros lugares?

outubro 30, 2007

O início do fim...

Andou por estes dias um governante por terras do Alto Minho e assinou uma série de compromissos. Um deles diz respeito a Paredes de Coura. O início do fim da obra, para a construção da ligação da sede do concelho à auto-estrada, nó de Sapardos, começou.
Na expressão latina -alea jacta est - a sorte está lançada. Resta esperar. Não sentados, mas vigilantes e atentos para que os tempos se cumpram, a obra ande e a via apareça.
Mais do que nunca, é necessário reivindicar, pois as promessas não podem ficar eternamente no papel.
Acredito que a ligação vai sair do papel e que Paredes de Coura vai ultrapassar um dos seus grandes obstáculos ao desenvolvimento.
Mas... não nos deixemos adormecer.

outubro 18, 2007

"Vende-se"

“Vende-se” – é a placa que mais encontro no concelho de Coura.
Em todo o lado, o frio das letras interioriza não a consagração do princípio do mercado, assente na oferta e procura, dependentes da vontade e necessidade do cliente, mas o esvaziar de espaços afectivamente construídos no caminhar de muitas gerações.

À minha volta, em Santa, o silêncio faz-se sentir. As crianças não brincam pelos caminhos, as pessoas não se cruzam como outrora e o “bom dia”, o “boa tarde” e o “boa noute”, como gostava de pronunciar meu pai, não se ouvem com tanta frequência.

Agora o carro também limita ainda mais essa comunicação de caminhos, mais forte há anos atrás porque todos se conheciam e para todos havia um registo muito personalizado.

As pessoas partiram, algumas para todo o sempre, e no seu lugar ficou a terrível placa “vende-se”.

Num espaço reduzido como é o monte de Santa identifico pelo menos oito lugares à venda. Mais do que a procura de novos donos, que trazem outros sonhos, e com quem não terei muito a oportunidade de dialogar, pois chegam e partem apressados, sinto o vazio dos que lá moraram, ainda que mentalmente possa reconstituir cenas e figuras do passado.

Em quase todos esses espaços, em abandono afectivo, há vidas que se cumpriram no amor eterno ao lugar, há vidas que partiram para outras terras e há vidas que ficaram desamparadas.

Podemos dizer que o ciclo das coisas é algo natural. A nossa humildade de humanos está precisamente na aceitação deste pressuposto que nos torna passageiros de uma viagem bem sinalizada. Mas se muitos partiram, o facto é que outros não lhes sucederam, prolongando o cordão umbilical das famílias. O ritual da sucessão quebrou-se, e daí o vende-se.

E esta placa, mais do que um negócio, é uma borracha que apaga os sentimentos dos lugares, tornando deléveis as imagens daqueles que conhecemos tão bem, por mais incisivos com que tenham sido registados.

Os que chegam de novo trazem os seus laços familiares, olham para os locais como moribundos afectivos e, passado algum tempo, afixam uma placa a dizer “vende-se”.

Neste ritmo de compra e venda, os sentimentos não são comercializáveis. Não há mercearia onde possamos comprar o que mais de familiar nos liga à memória viva dos lugares e não há dinheiro possível para um acto que se torna num verdadeiro sofrimento para quem decide escrever numa placa as sete letras (vende-se) que indicam o fim de um caminho percorrido com muitos afectos.

outubro 11, 2007

Cruzadas palavrosas

Filomena Mónica, ex-socióloga e actualmente opinion-maker, escreveu imenso sobre educação, sobretudo sobre Sociologia da Educação, nos primeiros anos de vida académica, e sobre exames, há uns anos atrás.
Como não compreendeu ainda muito bem como é que a escola funciona e quais são os factores pelo atraso endémico de Portugal, ultimamente tem zurzido nos doutores da educação, que elegeu como principal alvo de estimação.
Não consta, no registo político português, que algum desses doutores tenha sido ministro da educação. Daí que tivesse escolhido secretários de estado como alvo político fácil e que tenha atribuído, só na imaginação, claro, a Roberto Carneiro o título honorário de Doutor em Educação.
Mais do que criticar, e erradamente, seria bom que Filomena Mónica apresentasse ideias construtivas para a melhoria do sistema educativo e que, já agora, tivesse a oportunidade de as implementar.
Como seria a reforma educativa Maria Filomena Mónica?

outubro 01, 2007

Eleições

O PSD lá cumpriu o ritual de auto-flagelação em público, com as eleições para líder do partido, para escolher entre dois não-candidatos.
Ganhou um e perdeu outro, obviamente, perderam os dois, talvez, não ganhou nenhum deles, certamente.
Lendo os escritos e escutando os comentários das elites social-democratas, onde estão Pacheco Pereira e Marcelo Rebelo de Sousa, o que se avizinha é confrangedor para o partido e para o país. Vamos assistir à "gaiaziação"da política, mesmo que isso signifique ter lindas obras, que até apreciamos, mas uma dívida monumental ao nível da autarquia de Vila Nova de Gaia, primeiro quartel-general do agora líder Luís Filipe Menezes (o plagiante escrevinhador de blogues, como foi politicamente apresentado).
O que proporá Menezes para a educação? Se copiar as ideias neo-liberais será ainda muito pior daquilo que agora temos. Mas aguardemos.


setembro 29, 2007

setembro 28, 2007

setembro 24, 2007

setembro 20, 2007

setembro 18, 2007

setembro 16, 2007

setembro 11, 2007

setembro 06, 2007

agosto 31, 2007

E a educação?

O Presidente da República, a propósito do veto à lei que regulamenta a orgânica da Guarda
Nacional Republicana, diz que em questões de fundo, caso da defesa e segurança, é necessário um amplo consenso político e jurídico em sede parlamentar.
Todos estamos de acordo, decerto. Mas onde está a coerência do Presidente quando promulga a lei, apenas aprovada com os votos socialistas, sobre a reforma das instituições de ensino superior? Nem um único reparo, nem uma única dúvida, somente certezas. Estranho!!
Quer dizer, assim, que em matéria de educação não são necessários consensos. Restam as pobres palavras de políticos...

agosto 28, 2007

agosto 27, 2007

agosto 26, 2007

agosto 03, 2007

Conversar...

Nesta semana, desloquei-me a Joaçaba (uma pequena cidade - 30 000 habitantes), no interior do Estado de Santa Catarina, a fim de participar num Congresso, depois do convite endereçado por professores da Universidade do Oeste de Santa Catarina.
Apesar de ter dialogado com colegas de muitos pontos do Brasil, as conversas que mantive com um colega da Universidade de Lisboa constituíram um bom momento, sobretudo para saber mais sobre o meu país e para saber também para lá daquilo que os jornais não trazem ou deturpam.
Por mais que gostemos de contactar com as pessoas de um país estrangeiro, é sempre reconfortante falar com aquelas que conhecemos, podendo partilhar os mesmos problemas e formas de olhar para os factos, ou seja, aquilo que nos torna portugueses ou brasileiros.
Na leitura de um jornal, na audição de uma notícia, na visualização de imagens sobre pessoas ou sobre lugares, utilizamos, como cidadãos nacionais, uma linguagem que nos confere um modo de compreender a realidade em que estamos inseridos. E neste mar de globalização, que torna iguais tantas coisas, como se não existissem diferenças, temos, de facto, uma forma particular de nos ligarmos às pessoas e aos lugares. Tal identidade jamais poderá ser globalizada.