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Blogue para discutir questões diversas, de preferência nos contextos português e brasileiro, não deixando de olhar para aspectos globais e regionais.
“Aqueles que amamos nunca morrem;
apenas partem antes de nós”.
(Amado Nervo, poeta brasileiro)
No seguimento da aprovação pelas Assembleias Municipais dos cinco concelhos do Alto-Minho, a Assembleia da Comunidade Intermunicipal do Vale do Minho, em reunião realizada na segunda semana de Março, aprovou a constituição de um empresa para a instalação e exploração da rede comunitária, ou seja, da rede de fibra óptica.
A rede digital permitirá que os courenses tenham acesso a uma série de serviços, de que os utentes de certas urbes já beneficiam, através do que é designado por cabo, incluindo televisão, telefone e Internet.
Não restam dúvidas que esta auto-estrada é da maior importância para o concelho de Paredes de Coura, mais ainda quando o mesmo sofre, de forma tão crónica, não só de uma doença territorial, conhecida, mais vulgarmente, pelo nome de interioridade.
Mesmo assim, e lembra-se que o capital social da referida empresa é misto, 49% privado e 51% público, embora o investimento seja mais privado (55%) que público (45%), o PSD local optou pela dúvida, pelo questionamento fútil e pelo cacarejar político.
Olhando para o que se passou na Câmara com os vereadores, que se abstiveram na votação, observa-se que a oposição não consegue estar do lado certo em momentos que são fundamentais para o concelho.
Mas alguma vez um presidente de Câmara poderia rejeitar esta grande oportunidade, politicamente concertada no plano das actividades da Comunidade Intermunicipal do Vale do Minho?
É evidente que não. Todos os presidentes dos dez concelhos do Alto-Minho, porque a Comunidade Intermunicipal do Vale do Lima também enveredou por idêntica iniciativa, optaram pela auto-estrada digital e decidiram investir em algo que pode fazer a diferença para que a interioridade de que sofrem não seja também a dos info-excluídos.
Tem sido notícia, nos últimos dias, a discussão da proposta de alteração à lei eleitoral dos órgãos das autarquias locais. O anteprojecto foi aprovado na generalidade na Assembleia da República, dentro de um “processo negocial de convergência”, pelos grupos parlamentares do PS e PSD.
Para que haja uma “mais directa relação entre os eleitos e os eleitores”, a arquitectura dos órgãos das autarquias locais é substantivamente modificada em dois aspectos essenciais.
Quer dizer: o Presidente da Câmara terá um leque muito maior de escolha, depois das eleições, dos seus vereadores, mas desde que esses elementos façam parte da lista eleita para a Assembleia Municipal. Além disso, o Presidente terá uma maioria mais confortável, pois a oposição ficará mais reduzida em termos de representatividade no órgão camarário.
Quanto ao segundo, a Assembleia Municipal vê reforçados os seus poderes de fiscalização e controlo. O Presidente da Câmara, que será o candidato da lista que obtiver maior número de votos nas eleições, forma a sua equipa no contexto da Assembleia, podendo ocorrer neste espaço a sua destituição. Deixará não só de haver listas separadas para a Assembleia e para a Câmara, como também se processará de modo mais directo a interligação destes dois órgãos.
No entanto, há um ponto de muita discórdia: os Presidentes das Juntas de Freguesia deixarão, e sinceramente não acredito que esta proposta seja a mais correcta, de usar o direito de voto nas seguintes competências da Assembleia Municipal: “Acompanhar e fiscalizar a actividade da câmara municipal, dos serviços municipalizados, das fundações e das empresas municipais”; “aprovar as opções do plano e a proposta de orçamento, bem como as respectivas revisões”.
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros com outros olhos,
Não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
Uns outros descobrem cores
Do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
Onde passa tanta gente,
Uns vêem pedras pisadas,
Mas outros, gnomos e fadas
Num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
Querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
António Gedeão
| O meu perfil é duro como o perfil do mundo.
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“Vende-se” – é a placa que mais encontro no concelho de Coura.
Em todo o lado, o frio das letras interioriza não a consagração do princípio do mercado, assente na oferta e procura, dependentes da vontade e necessidade do cliente, mas o esvaziar de espaços afectivamente construídos no caminhar de muitas gerações.
À minha volta, em Santa, o silêncio faz-se sentir. As crianças não brincam pelos caminhos, as pessoas não se cruzam como outrora e o “bom dia”, o “boa tarde” e o “boa noute”, como gostava de pronunciar meu pai, não se ouvem com tanta frequência.
Agora o carro também limita ainda mais essa comunicação de caminhos, mais forte há anos atrás porque todos se conheciam e para todos havia um registo muito personalizado.
As pessoas partiram, algumas para todo o sempre, e no seu lugar ficou a terrível placa “vende-se”.
Num espaço reduzido como é o monte de Santa identifico pelo menos oito lugares à venda. Mais do que a procura de novos donos, que trazem outros sonhos, e com quem não terei muito a oportunidade de dialogar, pois chegam e partem apressados, sinto o vazio dos que lá moraram, ainda que mentalmente possa reconstituir cenas e figuras do passado.
Em quase todos esses espaços, em abandono afectivo, há vidas que se cumpriram no amor eterno ao lugar, há vidas que partiram para outras terras e há vidas que ficaram desamparadas.
Podemos dizer que o ciclo das coisas é algo natural. A nossa humildade de humanos está precisamente na aceitação deste pressuposto que nos torna passageiros de uma viagem bem sinalizada. Mas se muitos partiram, o facto é que outros não lhes sucederam, prolongando o cordão umbilical das famílias. O ritual da sucessão quebrou-se, e daí o vende-se.
E esta placa, mais do que um negócio, é uma borracha que apaga os sentimentos dos lugares, tornando deléveis as imagens daqueles que conhecemos tão bem, por mais incisivos com que tenham sido registados.
Os que chegam de novo trazem os seus laços familiares, olham para os locais como moribundos afectivos e, passado algum tempo, afixam uma placa a dizer “vende-se”.
Neste ritmo de compra e venda, os sentimentos não são comercializáveis. Não há mercearia onde possamos comprar o que mais de familiar nos liga à memória viva dos lugares e não há dinheiro possível para um acto que se torna num verdadeiro sofrimento para quem decide escrever numa placa as sete letras (vende-se) que indicam o fim de um caminho percorrido com muitos afectos.