fevereiro 24, 2014


PAREDES DE COURA [Vítor Paulo Pereira]

 

“O novo presidente da Câmara de Paredes de Coura é um dos indivíduos mais preciosos que em toda a vida encontrei. O Vítor Pereira, com 44 anos e o modo mais transparente de alma, é uma fi gura de benignidade ostensiva e eu não sei se haverá no mundo outra pessoa assim.

Nunca me passou pela cabeça que ele pudesse vir a ocupar um cargo destes. O que eu sabia do Vítor passava sobretudo pela intensidade dos afectos, a disponibilidade para os outros, o amor pela esposa e pelos filhos. Em Coura todos o conheciam. Ele mistura-se com quem andar na rua. Não tem filtros e não aguenta adiar abraços.
Colecciona as histórias pícaras da terra. Ri-se desbragadamente, apoliticamente, como se rir fosse mesmo a melhor das inteligências. Por ser assim, é o que mais tem para dar aos outros, uma energia honestamente votada à felicidade de existir.
O que verdadeiramente me impressiona no senhor presidente da Câmara de Paredes de Coura é, no entanto, a sensibilidade. A sua comoção com as coisas, a celebração dos dias mas também a tristeza sempre consciente do que a vida nos vai fazendo.
O que nos tira, quem nos tira, quem nos vai tirar. Eu, que sou um aflito com sensibilidades, percebo bem aquilo que candidamente o Vítor conta. Entendo e acho que a humanidade só existe quando, exactamente, fazemos da felicidade e da tristeza um assunto que chega também, ou sobretudo, dos outros.
Eu não tenho dúvidas de que muitos presidentes de câmara serão imbuídos de um espírito construtivo, um espírito bom, mas não acredito tanto que o nível de lisura do Vítor se repita completamente. Seria a salvação do mundo, se em cada dez houvesse ao menos um assim. Coura inaugurou, antes do Verão passado, a nova biblioteca, a de Aquilino Ribeiro. Uma casa recuperada que se estendeu e que fi «ca de vistas para a paisagem.
Quando subimos às salas de leitura não sabemos se devemos ler ou pasmar nas janelas. Parece a diferença entre ler os livros do Aquilino Ribeiro e ver os livros do Aquilino Ribeiro diante dos olhos expostos.
Fui à nova biblioteca falar com os alunos do secundário e, à noite, com o público geral. Em ambas sessões me vi brevemente apresentado pelo Vítor que, correctamente desimportado com o que vem na wikipédia, repetiu que somos amigos. Pus-me de peito inchado, porque também tenho orgulho e nem sempre o disfarço.

(...)  Um dia destes volto. Vou voltando sempre. Agora, mais do que nunca, feliz por acreditar que Paredes de Coura está magnificamente cuidada pelo Vítor Pereira.  Um homem de profunda boa fé”

 

Valter Hugo Mãe, escritor, Jornal PÚBLICO, 23.2.2014.

fevereiro 10, 2014

Tribunal de Paredes de Coura


Foi encerrado o tribunal de Paredes de Coura.
Por decisão de um governo neoliberal, em nome do PSD e CDS.  De um governo que desgoverna. De um governo que tira a identidade às freguesias, impondo, à força, uma união não desejada.
De um governo que gosta de pôr o pé em cima das pessoas, humilhando-as a todos os níveis. De um governo que não olha a meios para atingir os seus fins, ou os interesses financeiros de uma troika, sem rosto e sem orientação.
De um governo que empobrece as pessoas, engordando os senhores do dinheiro, sobretudo se forem estrangeiros. De um governo que volta as costas ao interior, querendo transformar o país num longo e estreito corredor do litoral que vai de Porto a Lisboa.
De um governo que é forte para com pobres e fraco para com os ricos. De um governo que não cumpre a palavra. Que não sabe o que é o sofrimento social de muitos portugueses.
De um governo que se esqueceu das promessas eleitorais, tendo-as metido na gaveta. De um governo sem alma social. De um governo sem memória, sem compromissos com os portugueses e subordinado a interesses económicos estrangeiros.

janeiro 26, 2014

NARCISO ALVES DA CUNHA - O LEGADO DA SABEDORIA


Mais um ano, mais uma década e tantas outras, e cumprem-se, a 14 de janeiro de 2013, os 101 anos da morte de Narciso Alves da Cunha. Quanto mais leio sobre este courense, cujo legado é o da sabedoria, através quer do que escreveu, quer do que foi como homem político, com voz ativa no município e no senado republicano, para além da sua formação de clérigo e de bacharel em direito, mais me entusiasma o seu conhecimento e sobretudo a sua dedicação às terras de Coura. Não há dúvida alguma que foi o que escreveu até hoje as palavras mais dedicadas - e bairristas, há que dizê-lo! - a uma terra que escolheu como berço e a quem prestou o seu tributo, numa comunhão com o povo, que sempre foi o seu lema de homem comprometido com a sua origem rural. 
Na entrevista que concedeu ao jornal “A Capital”, a 14 de junho de 1911, no momento em que assumiu o seu lugar de senador, Narciso Alves da Cunha proferiu estas palavras: “O meu partido é o Povo, principalmente o rural, de onde provenho e com quem sempre tenho vivido”.
Em intervenções que fez no senado, tendo-se revelado um tribuno na oratória, com ideias e com capacidade de dissuasão, disse a 22 de janeiro de 1911: “Vou pedir-lhes que desçam do sétimo céu das suas teorias e quiçá das suas filosofias bizantinas e venham à terra observar os costumes, os usos, as práticas, o feitio, a índole e as necessidades do povo, para depois, poderem argumentar. Nesse terreno, talvez eu possa discutir e acompanhá-los”.
Ainda na mesma intervenção: “Ninguém desconhece, Sr. presidente e Srs. senadores, que o povo do Norte, e, sobretudo, o povo do Minho, é extremamente agarrado à terra, ao solo em que nasceu, à paróquia; é um povo que se não desloca; é um povo que nasce, cresce, muda de estado e morre sem quase sair da paróquia em que nasceu ou constituiu família. Pois, acaso, poderemos nós chegar ao convencimento de que o povo dos campos há de ir procurar a escola, se esse povo não só está agarrado à terra, mas, a todo o momento, precisa de tratar das suas culturas, do amanho da mesma terra, das regas, dos adubos, e até da sua casa doméstica, em geral, pobre, e às vezes crivada de dívidas? Sem se assegurar o pão do corpo, não se procura o do espírito, é uma verdade incontrastável. Ou nós havemos de tomar a iniciativa de levar a esta gente a luz, de que precisa, até dentro das paredes enegrecidas das suas casas, ou, então, havemos de vê-la, constante e indefinidamente, na escuridão em que tem vivido até agora?”
Por último, e mantendo-se o registo da mesma intervenção parlamentar, Narciso Alves da Cunha definiu a sua ambição política, ao mesmo tempo que traçou o seu futuro: “É a minha própria consciência que o afirma; e, nesses poucos dias de vida que me restam, o meu ideal continuará a ser o Povo”.
Poucos dias, de facto restaram, pois dois anos passados recebia-se, através de um fatídico telegrama, a triste e dura notícia da sua morte.
Resta-nos recordar e eternizar a sua memória pelo seu legado de sabedoria.

 2013

janeiro 01, 2014

Paredes de Coura em 1932
In "Anuário do Distrito de Viana do Castelo", Volume I, pp. 243-247
http://gib.cm-viana-castelo.pt/documentos/20100331125702.pdf

abril 03, 2013

Tomada de posse da Presidência do Instituto de Educação
 
A tomada de posse da nova Presidência do Instituto de Educação da Universidade do Minho realiza-se esta quinta-feira, dia 4, às 16h30, no auditório do Instituto de Educação, sito no campus de Gualtar, em Braga. A cerimónia de investidura é presidida pelo Reitor António M. Cunha.
 
Presidente:
Professor Doutor José Augusto Brito Pacheco
  
Vice-Presidentes:
Professora Doutora Leonor Maria Lima Torres
Professora Doutora Ana Maria Silva Pereira Henriques Serrano
  
Convida-se toda a comunidade académica a participar nesta sessão.
 
__________________________________________
Gabinete de Comunicação, Informação e Imagem
Universidade do Minho
Tel.: (+351) 253601109 | 961766329
Fax: (+351) 253601105

março 26, 2013


Estamos em meados do século XX, quase nos tempos findos da II guerra mundial. Coura vivia em sobressaltos, sem informação e a que se conseguia ouvia-se pela rádio.
Já tinha passado o pesadelo da guerra civil de Espanha, que se revelava pelo barulho longínquo das armas de guerra e pelas mortes que covardemente aconteciam, e o futuro não se vislumbrava na linha do horizonte.
O remédio era mesmo emigrar. Partir para terras do Brasil, à procura de sucesso era o desejo que mais se inscrevia nos homens e mulheres deste tempo. E muitos da família Pacheco, com origem em Ferreira, fizeram-no.
Primeiro, foi o Abílio, que partiu na sua adolescência em direção ao Rio de Janeiro. Chegou, trabalhou e morreu. Ainda casou e deixou um filho que entretanto outro filho deixou, desconhecendo por inteiro as raízes de seu avô.
Em segundo, partiu Augusto, um exímio carpinteiro. Um verdadeiro gentleman, de finura no trato e carinhoso nas palavras de família.
A cidade do Rio de Janeiro ainda o reteve uma década, mas regressou para o seu ofício, com uma outra imagem do mundo, criando filhos, que também emigraram, mas agora para a Europa.
Por último, Amadeu. Fez-se emigrante por motivos políticos. Teve uma querela jurídica e, atempadamente, foi avisado, por voz amiga, que o melhor seria partir, para não ser apanhado nas malhas da Pide.
Assim o fez. Quase clandestinamente, chegou ao Rio de Janeiro e imediatamente começou a trabalhar, como carpinteiro, na ampliação do porto de mar. Passou anos e anos por ali, mas depois tornou-se operário de uma fábrica na Vila Isabel, mesmo ao lado do Maracanã.
A esposa logo apanhou um transoceânico e a vida deles deixou de ser courense. Também os dois filhos fizeram o mesmo percurso, partilhando o mesmo destino: partir para não mais voltar
Por Coura ficaram Arnaldo e Cândida, os restantes membros da família de José e Carlota. Estiveram sempre em contacto com os irmãos, mas a ligação foi-se tornando mais ténue, a não ser com Augusto, entretanto regressado às origens.
Receberam a notícia da morte dos irmãos e choraram na sua dor interior de uma família destroçada pela emigração. Sabiam como eram as suas vidas longínquas, trocavam cartas e fotografias e aproveitavam a Páscoa para reunir a família de Coura e saber novas de terras brasileiras.
Por isso, ainda considero que a Páscoa é um momento de confraternização, trazendo-me de volta a família da emigração, com tudo o que isso significa de dor silenciosa.

março 04, 2013


Saí de Tóquio em direção a Singapura e ainda fui a tempo de presenciar comemorações do novo ano chinês, em que o bairro de Village se encheu de barracas de comes e bebes, trazendo-me à memória o que acontece em Coura todos os anos, quando o largo da feira se enche de comida tradicional e se empanturra de vinho e cerveja.
Mesmo sendo um ponto de passagem, pois é um dos maiores centros distribuidores do mundo ao nível de passageiros aéreos e de contentores comerciais, Singapura tem uma beleza urbana que jamais se pode esquecer. É principesca nos seus edifícios e exibe os sinais de uma das sociedades mais organizadas que poderemos conhecer, apesar de ser uma democracia imperfeita, lembrando a frase que se utiliza para os tempos gregos de Péricles e companhia.          
E chego a Timor, mais concretamente a Díli, levando na bagagem a expetativa de saber como iria reencontrar a cidade depois da saída da quase maioria do pessoal da ONU e também do contingente da GNR. E Díli mudou imenso. Há menos circulação de carros oficiais, ou de jipes superprotegidos de pessoas bem pagas internacionalmente, continuando mesmo assim o trânsito frenético de motas e de táxis.
Desta vez, circulei muito pouco dentro da ilha. Apenas fui a Liquiçá e Maubara, numa visita rápida, pois as estradas, como diz o Snr. Félix – um dos homens mais simples de Timor e um dos mais teóricos da sabedoria popular -., estão cada vez mais preguiçosas, ou seja, com muitos obstáculos que as tornam lentas e quase imprevisíveis.
Depois da forte de Maubara, chamou-me a atenção um conjunto de campas brancas, moídas de sujidade pelo tempo. Aproximei-me e, amarguradamente, contei, na primeira fila, 12, e na 2ª fila, cinco. Li, em voz alta, os seus nomes, todos eles escritos em língua portuguesa, e confirmei a data da sua morte, a 6 e 17 de abril de 1999. Todos jovens, entre os 14 e 22 anos. Que dor de alma esta imagem de incompreensão humana, sobretudo quando se está perante alguém que lutou para ser livre, acreditando no entendimento entre as pessoas. Mais uma vez, socorri-me do conhecimento do Snr. Félix, que me informou que se tratou de dois massacres. Fico sem palavras e um arrepio percorre-me o corpo, impondo-me o máximo de respeito por estes jovens, cobardemente assassinados.
Torno a ler os seus nomes, agora, no meu silêncio de sofrimento, e fico distraidamente a olhar para as águas azuis de um mar calmo que se prolongava à minha frente.
Gostaria de ter ficado assim mais tempo, mas tive de voltar a Díli, já que as estradas estavam inundadas de uma chuva copiosa que caíra sem parar durante algumas horas.

fevereiro 25, 2013

Acabo de estar três dias inteiros em Tóquio. Não há palavras que possam descrever tudo o que presenciei e senti, mas como a crónica me obriga, tenho de selecionar alguns desses momentos.
Se há cidades simples e complexas, Tóquio é uma delas. Tudo funciona bem, de forma superorganizada, no meio da mais vasta concentração de pessoas, que enchem por completo as ruas, sempre movimentadas.
Há regras socialmente aceites. Não se fuma na rua, a não ser em locais devidamente sinalizados, há respeito máximo pelas pessoas e os carros ocupam um lugar secundário.
Em contrapartida, há uma rede de metro por toda a cidade (de dez milhões, que é sensivelmente igual à população portuguesa), que ainda é o melhor guia que se pode escolher para ir a qualquer lado.
As ruas são, por isso, o palco principal e por elas transitam milhares de pessoas, em direções diferentes, dando vida e colorido a uma multidão que não dispensa as novas tecnologias, sobretudo tudo o que diga respeito a telemóveis e aparelhos individuais de música.
É uma cidade jovem, observando-se essa faceta na publicidade viva que torna os prédios mais coloridos. É uma cidade de parques e jardins, que enchem no fim de semana, como se fossem espaços obrigatórios de lazer.
É uma cidade de templos, com a sua espiritualidade oriental, em que a religião se vive mais por dentro do que por fora. É uma cidade de contrastes. De torres gigantes e de prédios urbanos que mais parecem linhas ondulantes numa paisagem perfeita. De uma delas, vê-se o espetáculo do pôr-do-sol no monte Fuji, um dos grandes símbolos do Japão.
Mas voltemos às ruas. Continuamos a ser surpreendidos pelos comportamentos das pessoas.
Ninguém passa à frente de ninguém; há o vício das filas; ninguém, aparentemente, se aborrece com o outro; há gestos de compreensão; ninguém furta o que é alheio; há um controlo de proximidade; ninguém ousa desobedecer às sinaléticas que estão por todo o lado.
Porém, Tóquio não é uma cidade cosmopolita, de todos os viajantes e estranhos possíveis. Permanece fiel a um modo de vida oriental, sem a ocidentalização que se verifica, por exemplo, em Singapura.
Tóquio é uma cidade única, que apenas conheci, em companhia dos meus filhos, em três dias. Mesmo assim, penso que é uma cidade que apenas se conhece depois de muitas horas de pés cansados.

janeiro 22, 2013

janeiro 20, 2013

 
 
"CANALHÍADES"
(escrito por alguém que observa a crise):
 
 
 
I
As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se do quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!

II

E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!

III

Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.

IV

E vós, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!

Luíz Vais Sem Tostões



janeiro 16, 2013


Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumia-se, como faz um verme.

(Camilo Pessanha, Clepsidra, 1920)

dezembro 31, 2012

dezembro 27, 2012


O Presidente da Câmara Municipal de Paredes de Coura tem a honra de convidar V. Exa. para as Comemorações do Centenário da Morte de Narciso Cândido Alves da Cunha (1851-1913), que decorrerão nos dias 11 e 12 de Janeiro p.f., com o seguinte programa:

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Sexta-feira – 11 de janeiro

 21h00 - Sessão de abertura
Arquivo Municipal

Inauguração da mostra documental, concebida pelo Arquivo Municipal de Paredes de Coura, “Narciso Cândido Alves da Cunha – o legado da sabedoria”.
Casa do Conhecimento CMPC/UM

Lançamento do livro Narciso Alves da Cunha – entre a Monarquia e a República, da autoria do investigador e docente da Universidade do Minho, Prof. Doutor José Augusto Pacheco. A obra contará com as apresentações dos académicos Prof. Doutor Jorge Alves e Dr. Victor Paulo Pereira.
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Sábado –  12 de janeiro
Casa do Conhecimento CMPC/UM
10h30 – Conferência: Deputados Minhotos da Monarquia e da 1ª República, de Victor Paulo          
 Pereira (doutorando da Universidade do Minho).

14h30* - Passeio, por locais emblemáticos do concelho de Paredes de Coura, referenciados na monografia, da autoria do Dr. Narciso C. Alves da Cunha, pontuado pela leitura de textos escolhidos pelo autor do livro Narciso Alves da Cunha – entre a Monarquia e a República.

*Concentração junto à Loja Rural. Lugares limitados em autocarro (inscrição obrigatória).
António Pereira Júnior Presidente)

dezembro 04, 2012

Há muitas formas de qualificar as políticas do atual governo. A nível económico, a grande maioria dos analistas diz que é de desastre total.
A nível autárquico, digo eu, é de completo desprezo pelo poder local, com o que  se está a fazer em termos de freguesias e o que se pretende fazer em termos de comunidades intermunicipais e agregação de concelhos.
O governo, na sua relação insensata com o poder local, age na base da fuga para a frente. Tem um grave problema pendente relacionado com as freguesias e quer distrair os autarcas com as novas competências das comunidades intermunicipais, em que se regista a criação de mais emprego político, mas sobretudo com a prometida aprovação, para janeiro de 2013, de uma nova lei -quadro dos municípios.
 E isto, pasme-se, em pleno ano eleitoral!
Pobre governo é este e pobres são os seus legisladores!
E quem fica a perder é a imagem da Assembelia da República, pois a do governo já há muito se foi.

dezembro 01, 2012

Pela calada da maioria, numa conivência antidemocrática, que alia passos de andantes errados e portas fechadas, a Assembleia da republicazinha portuguesa, contrariamente aos votos que legitimaram os seus deputados de meros apoaintes de um governo desgovernado, agendou para o dia 6 de dezembro a questão da agregação das freguesias. Trata-se tão só de um golpe do poder central em relação ao poder local, que, por vasta maioria, disse NÃO a esta lei absurda e antidemocrática.

novembro 26, 2012

novembro 25, 2012

 Jornal "O Público" de 25 de novembro de 2012:

"... Desconcertante, é como José Pacheco, da Universidade do Minho, classifica o modo como este debate [ensino dual] foi lançado pelo Governo: não existe um documento, um projeto, nada que defina de forma sustentada e que posssamos analisar. Isto não é normal".

novembro 21, 2012


É, por certo, o governo mais desacreditado de todos os tempos, desde o constitucionalismo liberal até aos governos republicanos, é, sem qualquer dúvida, o presidente mais calado do regime democrático, é, sem qualquer medo de dizê-lo, o ministro mais inadequado de todos os governos, é, como todos reconhecem, o momento mais crítico para o poder local, para não falar no estado caótico e desordenado das finanças públicas.

É com estes sujeitos políticos e é neste contexto que, em nome de uma chamada unidade técnica para a reorganização administrativa do território, o município de Paredes de Coura, como em tantos outros, é confrontado com uma “proposta concreta” de agregação de freguesias.

Na ausência de pronúncia, a referida comissão, mandatada pela assembleia da república, decidiu, a regra e esquadro, o que os eleitos locais não decidiram, pois não só discordaram, por unanimidade, da lei imposta de cima para baixo, bem como contestaram a aplicação desgarrada de outras leis, por exemplo, a das finanças locais e a da eleição do poder local.

Eles, os do terreiro do paço, decidiram pelos outros, os do poder local. Esta é a triste realidade da política portuguesa. E decidiram sem legitimidade, dado que a criação e extinção de freguesias é uma das competências do poder local, não podendo ser realizada por um governo democraticamente desacreditado que ignora os princípios políticos do poder local.
Decidir como quer decidir a assembleia da república, escudada por uma comissão técnica, de natureza administrativa, é uma ameaça séria ao poder local e ao seu contexto histórico, construído há séculos pelo municipalismo.
A proposta apresentada, que terá de ser validada pelos deputados da maioria, é surrealista, sobretudo no modo como se arroga na pretensão de interpretar a lei, juntando de forma quase arbitrária as freguesias.
Caíram nesta malha politicamente estúpida as freguesias de Porreiras, Insalde, Paredes de Coura, Resende, Bico, Cristelo, Cossourado, Linhares, Formariz e Ferreira. “A união das freguesias de…” é a designação que se pretende para o futuro.
Porém, e os decisores não leram, ou não quiseram ler, que as todas as assembleias de freguesia do município e a assembleia municipal rejeitaram, por unanimidade, a implementação da referida lei.
Quer dizer, assim, que temos um governo central que é surdo para com o poder local, sendo, de igual modo, mudo no modo como dialoga, “protegido pela maioria”, com esse mesmo poder local.
E esta posição é politicamente insustentável e democraticamente inaceitável.

novembro 07, 2012


Regressei a Cabo Verde. Por uns dias, mas que se vão transformando em semanas.

Está-se bem pela Praia, uma cidade que foi crescendo ao ritmo da maturidade democrática no período pós-independência (sendo de considerar 1975, de Portugal, e 1980, da Guiné) onde se respira uma transição de culturas e por onde se entra numa porta especial da africanidade.

Entretanto, escrevo estas palavras do Mindelo, na ilha de S. Vicente, um lugar especial, a terra de Cesária Évora, que agora tem o seu nome estampado no aeroporto, e merecidamente. Disseram-me, aqui, que o seu funeral foi uma das manifestações populares mais memoráveis de todos os tempos.

É fim de tarde e do meu poiso de escriba errante, observo o monte cara, de uma figura de corpo deitado, dormindo em silêncio o sono profundo do tempo, e iluminado pelos raios enfraquecidos de um pôr do sol que brinca com as nuvens escuras que abraçam a ilha de Santo Antão.

Este fim de tarde coloca-me num outro lugar. Em Díli, na praia branca. O que hoje ouvi, numa conferência de um académico cabo-verdiano, trouxe-me de volta Timor.

Da última vez que por lá andei, frequentei, na referida praia, com um sol vermelho mergulhando no mar de ondas douradas, o restaurante chamado morabeza.

E esse académico falou precisamente sobre a identidade singular dos cabo-verdianos, que definiu como sendo um processo histórico de encontrão, ou seja, de adaptação constante a uma nova realidade, de enorme dureza e cheia de dificuldades climatéricas, geográficas e económicas. Pela sua natureza histórica, o povo cabo-verdiano é uma síntese do quase impossível: o de querer estar naquilo que é a insularidade e o de querer partir para outros mundos, como se estivesse em permanente viagem.

Tal identidade, que é plural e se alimenta da diáspora, tem uma palavra que é central na sua construção: morabeza.

Agora compreendo por que razão o tal restaurante, em Díli, pertence a um cabo-verdiano e de que modo morabeza tem um sentido diferente do que a palavra saudade.

 É uma saudade de contentamento, não de tristeza e de melancolia e de solidão interior.  Não se volta para o interior do sujeito, mas para o seu exterior, sendo algo que se cultiva na lógica de uma pertença a um espaço, que deixou de existir e que apenas é feito de memórias e tradições. Morabeza é o pensar positivo de um destino, é uma palavra viajante, sem destino algum, alimentando-se dos dias que passam e que se consomem no tempo. Morabeza é o que se recorda com alegria e com satisfação, sem pressentimentos negativos e acreditando num futuro que ainda é possível. Por isso, esta palavra é tão utilizada na caraterização da identidade dos cabo-verdianos, já que nas veias não lhe corre o sangue da tristeza mas, pelo contrário, a musicalidade africana.  

Bem, preciso de terminar esta crónica, pois espera-me o regresso à cidade da Praia levando na mochila que transporto um bocadinho de morabeza, pois do Mindelo há imagens que ficam para sempre e das quais nos vamos tentando recordar. E uma imagem que levo comigo é a da noite das “bruxinhas”, vestidas eroticamente de preto, inundando uma das baías mais bonitas que já conheci.

Sim, Mindelo é especial. É morabeza.

outubro 23, 2012


Se tivesse de mudar alguma coisa no espaço de uma crónica quotidiana, que vou escrevinhando em cada publicação do jornal Notícias de Coura, acrescentaria ao texto uma fotografia. Nos últimos anos, tudo se revolucionou no campo da fotografia digital, desde as máquinas até à impressão, com ganhos evidentes para a sustentabilidade do planeta. Fotografa-se mais, é certo, há uma realidade mais documentada, também é verdade, mas banalizámos o momento especial de ficar em memória.
Sobre algum evento tira-se foto e mais foto e depois deixamo-las ficar adormecidas no disco duro de um computador, como se tivessem entrado em hibernação prolongada. Um dia já não existirá software para as reproduzir e nesse caso lá se vai a memória breve, como aconteceu às imagens gravadas em vídeo VHS, para falar no sistema mais utilizado.
Quanto ao que está a acontecer-nos em termos de fotografia, nesta instantaneidade de registos crescentemente desvalorizados, poder-se-á escrever muitíssimo, como por exemplo, um ensaio para uma futura filosofia da fotografia, um livro que comprei há anos e que ainda não tive a oportunidade de ler.
Falo em fotografias porque um amigo meu de Coura mandou-me, hoje mesmo, uma dos meus anos de bombeiro voluntário. Por tempos, no único ano que estive por inteiro em terras courenses, depois dos meus 13 anos, e antes de voltar a partir, aos 19 anos, dediquei-me à causa do voluntariado.
Fiz a instrução no quartel contíguo ao edifício da câmara municipal, e participei nos poucos incêndios que nessa altura deflagravam, pois as florestas estavam limpas e a criminalidade não imperava.
Num dia de aniversário, os bombeiros voluntários foram convidados para um almoço numa dos restaurantes de Coura, na rua principal. Recordo-me bem desse dia, mas lá está a fotografia, que me foi enviada, a preto e branco a relembrá-lo.
De um lado, estão os mais velhos, os respeitáveis sócios e veneráveis diretores, do outro, os jovens bombeiros, de cabelos longos e sorrisos abertos.
Reconheço-os a quase todos, pois foram-me familiares, sendo mais fácil para os mais jovens que comigo tiraram a recruta de voluntário, aprendendo a marchar, a subir e descer escadas, a manusear mangueiras de incêndio e tudo o mais que fazia da vida de um bombeiro um tempo de solidariedade. E um espaço de convívio.
Desse ano especial para mim, há esta fotografia que retrata uma realidade de muitos jovens courenses que, como eu, decidiram voluntariar-se em nome da ajuda aos outros.
Nunca mais tive tempo para ser bombeiro e a minha relação foi acabando, mantendo-me como sócio e como participante numa ou noutra cerimónia, como o da mais recente, em que a associação humanitária de Paredes de Coura se tornou centenária, decerto, retratada a cores e em mil uma fotografias.
Mas esta foto a preto e branco é especial e, deste modo, quero agradecer ao bom amigo que amavelmente a enviou por email.

Uma foto com tempos de adolescência


outubro 24, 2011

Conversa de deuses

Depois de uma passagem fugaz, mas intensa e exploradora de locais inesquecíveis, por exemplo, o grande bazar (a catedral labiríntica do consumo popular) e a mesquita azul (a omnipresente presença da religião muçulmana), por Istambul, a cidade global, cosmopolita e ponto de encontro das civilizações ocidental e oriental, viajei, de comboio, para Eskishir – uma cidade do interior da Turquia.
Todos nós temos expetativas muito diversas quando visitamos pela primeira vez um país. Posso dizer que sobre a Turquia mantinha a curiosidade de conhecer Istambul, a cidade que já foi Bizâncio e Constantinopla, e entender por que razão há motivos ou não para a adesão à União Europeia.
Satisfeita a primeira, pude observar o quotidiano da população turca e pelas conversas que tive com muitas pessoas poder-se-á argumentar que não deve ser a Turquia a querer entrar na União Europeia, mas precisamente o contrário: é a União Europeia que precisa da Turquia.
Para além da questão da religião, que suscita muitos receios aos políticos de corredores infindáveis, há a pujança económica deste país, com uma população de 70 milhões e com um comércio muito desenvolvido. Agora compreendo melhor a posição da França e da Alemanha, já que com a Turquia na União Europeia, o seu poder de decisão sairia enfraquecido.
Quanto à religião, é uma outra realidade que é simplesmente diferente. A Turquia tem uma das sociedades mais laicizadas, ainda que a presença da religião esteja em todos os lados, sobretudo pelo som proveniente dos minaretes que transportam a voz altifalantada almuadem, num ritual que se repete cinco vezes ao dia.
Depois de um período de reza, e no centro histórico otomano de Eskishir, não resisti a entrar numa mesquita, depois de ter cumprido todos os procedimentos exigidos. Na sala circular da mesquita apenas estava eu, contemplando o silêncio e olhando avidamente para todos os pormenores.
Eis que chega um crente muçulmano e coloca-se a meu lado. Sentou-se. Pediu-me para o fazer também. Fez-me perguntas, em turco, e respondi, em português. Entre nós houve um diálogo mais de expressões faciais, de contentamento, que de palavras. Senti-me protegido. Por ali ficamos, em diálogo inter-religioso por mais uns minutos.
Certamente que deixamos as palavras para os nossos deuses.