A
História não se repete, mas insiste em deixar sinais reconhecíveis através de
semelhanças que nos obrigam a pensar sobre o que, hoje em dia, está a acontecer
com o crescimento inquietante da extrema-direita a nível mundial.
Tudo
está em causa quando a democracia – que, pela sua abertura aos outros e à
diferença de opinião, é uma espécie de barriga de aluguer de regimes
autocráticos e verdadeiramente fascistas – é destruída por dentro, como se as
mudanças autoritárias fossem a solução que o povo deseja, e não propriamente aquilo
que os déspotas, suportados por interesses económicos, proclamam com o mais
gritante despudor e a mais cruel falsidade.
É
um facto, como o disse Karl Marx, em 1851: «a História repete-se, a primeira
vez como tragédia, a segunda como farsa.»
Mas
qual é a comédia dos nossos tempos nesse processo de destruição que começa por
ser uma opinião, transforma-se, depois, em lei e, por fim, integra a própria constituição?
Respondo
com uma das mais aclamadas peças de teatro da última década, em Portugal, com
texto e encenação de Tiago Rodrigues: Catarina e a Beleza de Matar Fascistas.
Assisti,
há duas semanas atrás, a este espetáculo no Theatro Circo, em Braga, e
tenho de confessar que a história não nos deixa indiferentes, dialogando
connosco e interpelando-nos à reflexão sobre os limites da tolerância.
Na
parte final da peça, depois de o fascista ter sido poupado à morte à luz de
valores humanistas e democráticos, segue-se um longo discurso, carregado de
ódio e de contradições. O que aí está
verdadeiramente em causa, pelo menos assim o senti, é o modo como toleramos a
intolerância, como se esta fizesse parte natural das nossas escolhas políticas.
Se
pararmos para pensar um pouco, as ideias xenófobas, que traçam a linha de
separação entre “Nós” e “Eles”, são apresentadas em defesa de valores
nacionalistas, salpicados de pseudovalores religiosos, num regresso saudosista
ao passado, mesmo que a História, afinal, não se repita.
No
final da peça, sente-se um murro no estômago, como se precisássemos de ser
alertados para os perigos que tais ideias originam, mais ainda quando,
facilmente, caímos na armadilha da irracionalidade.
É
aqui que tragédia e comédia se encontram.
