fevereiro 02, 2026

Quando a História é tragédia e se repete como farsa

 

 


 

A História não se repete, mas insiste em deixar sinais reconhecíveis através de semelhanças que nos obrigam a pensar sobre o que, hoje em dia, está a acontecer com o crescimento inquietante da extrema-direita a nível mundial.

Tudo está em causa quando a democracia – que, pela sua abertura aos outros e à diferença de opinião, é uma espécie de barriga de aluguer de regimes autocráticos e verdadeiramente fascistas – é destruída por dentro, como se as mudanças autoritárias fossem a solução que o povo deseja, e não propriamente aquilo que os déspotas, suportados por interesses económicos, proclamam com o mais gritante despudor e a mais cruel falsidade.

É um facto, como o disse Karl Marx, em 1851: «a História repete-se, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.»

Mas qual é a comédia dos nossos tempos nesse processo de destruição que começa por ser uma opinião, transforma-se, depois, em lei e, por fim, integra a própria constituição?

Respondo com uma das mais aclamadas peças de teatro da última década, em Portugal, com texto e encenação de Tiago Rodrigues: Catarina e a Beleza de Matar Fascistas.

Assisti, há duas semanas atrás, a este espetáculo no Theatro Circo, em Braga, e tenho de confessar que a história não nos deixa indiferentes, dialogando connosco e interpelando-nos à reflexão sobre os limites da tolerância.

Na parte final da peça, depois de o fascista ter sido poupado à morte à luz de valores humanistas e democráticos, segue-se um longo discurso, carregado de ódio e de contradições.  O que aí está verdadeiramente em causa, pelo menos assim o senti, é o modo como toleramos a intolerância, como se esta fizesse parte natural das nossas escolhas políticas.

Se pararmos para pensar um pouco, as ideias xenófobas, que traçam a linha de separação entre “Nós” e “Eles”, são apresentadas em defesa de valores nacionalistas, salpicados de pseudovalores religiosos, num regresso saudosista ao passado, mesmo que a História, afinal, não se repita.

No final da peça, sente-se um murro no estômago, como se precisássemos de ser alertados para os perigos que tais ideias originam, mais ainda quando, facilmente, caímos na armadilha da irracionalidade.

É aqui que tragédia e comédia se encontram.