Uma das
obras literárias mais marcantes que li nos últimos tempos é,
inquestionavelmente, a biografia O Romance de Camilo, escrita por
Aquilino Ribeiro e publicada entre 1957 e 1961, com reedição, em 2025, pela
Bertrand Editora, com prefácio do Professor José Cândido de Oliveira Martins.
Há, pelo
menos, três ideias que me ficaram bem presentes – para além da leitura
aprazível que Aquilino Ribeiro proporciona, não fosse ele um dos principais
escultores da escrita literária, cinzelada palavra a palavra, nos seus mais
diferentes significados – sobre Camilo Castelo Branco, que «trabalhou dia e
noite como um moiro», e autor de Amor de Perdição: «É a novela mais bem
composta, mais portuguesa da lei, modelada de um só jacto, da literatura
nacional.»
A primeira
diz respeito à antinomia entre a excecionalidade do escritor, a cujo génio
Aquilino Ribeiro tece rasgados elogios, e a instabilidade do seu percurso
vivencial, pois «a febre literária trazia-o muitas vezes em levitação da vida
real».
Outra ideia
relaciona-se com o contexto geográfico, alfobre das suas muitas personagens,
como reconhece Aquilino Ribeiro: «A obra de Camilo Castelo Branco deixa ver à
sua espalda, particularmente, o Minho e Trás-os-Montes, com a comparsaria
própria dum país semi-bárbaro.»
Ora, é no
Alto Minho que Aquilino situa o romance A Casa Grande de Romarigães,
antecedendo a escrita dessa biografia sobre Camilo. O que ele diz sobre Camilo
também se lhe aplica: «O Minho foi para ele uma magnífica escola da linguagem e
até de ficção.»
A última
ideia que pretendo realçar, pelo espanto que me causa, é a faceta autodidata de
Camilo Castelo Branco, uma vez que, nos seus escassos estudos oficiais, «tudo
foi sempre movediço, instável, fugaz e imprevisto no deslize alucinado da sua
vida».
Aquilino Ribeiro
evoca ainda, com manifesta amargura, a falta de liberdade de expressão que
marcou longos anos da sua existência sob a ditadura, em contraste com o tempo usufruído
por Camilo, Castelo Branco, a propósito do qual escreve:
«Felizmente,
os seus tempos foram de liberdade e pode exercê-la tanto nos escritos, próprios
ou traduzidos, como nas polémicas contra tudo e contra todos. Ninguém se
arrojou, em nome de nenhum direito, a coarctar-lhe o uso da pena. Podia
proclamar: o poder menosprezou-me nos melhores dias da minha vida, mas não me
fechou numa masmorra; não pôs entraves à expressão do meu pensamento; deixou-me
falar segundo me pedia o entendimento ou a gana.»
«Nunca ele
compreenderia as gargalheiras no espírito, essas que obrigam o homem a derramar
sobre o próprio sangue o fel das suas convicções, acalcanhadas pela mordaça dos
ditadores.»

