fevereiro 10, 2026



Uma das obras literárias mais marcantes que li nos últimos tempos é, inquestionavelmente, a biografia O Romance de Camilo, escrita por Aquilino Ribeiro e publicada entre 1957 e 1961, com reedição, em 2025, pela Bertrand Editora, com prefácio do Professor José Cândido de Oliveira Martins.

Há, pelo menos, três ideias que me ficaram bem presentes – para além da leitura aprazível que Aquilino Ribeiro proporciona, não fosse ele um dos principais escultores da escrita literária, cinzelada palavra a palavra, nos seus mais diferentes significados – sobre Camilo Castelo Branco, que «trabalhou dia e noite como um moiro», e autor de Amor de Perdição: «É a novela mais bem composta, mais portuguesa da lei, modelada de um só jacto, da literatura nacional.»

A primeira diz respeito à antinomia entre a excecionalidade do escritor, a cujo génio Aquilino Ribeiro tece rasgados elogios, e a instabilidade do seu percurso vivencial, pois «a febre literária trazia-o muitas vezes em levitação da vida real».

Outra ideia relaciona-se com o contexto geográfico, alfobre das suas muitas personagens, como reconhece Aquilino Ribeiro: «A obra de Camilo Castelo Branco deixa ver à sua espalda, particularmente, o Minho e Trás-os-Montes, com a comparsaria própria dum país semi-bárbaro.»

Ora, é no Alto Minho que Aquilino situa o romance A Casa Grande de Romarigães, antecedendo a escrita dessa biografia sobre Camilo. O que ele diz sobre Camilo também se lhe aplica: «O Minho foi para ele uma magnífica escola da linguagem e até de ficção.»

A última ideia que pretendo realçar, pelo espanto que me causa, é a faceta autodidata de Camilo Castelo Branco, uma vez que, nos seus escassos estudos oficiais, «tudo foi sempre movediço, instável, fugaz e imprevisto no deslize alucinado da sua vida».

Aquilino Ribeiro evoca ainda, com manifesta amargura, a falta de liberdade de expressão que marcou longos anos da sua existência sob a ditadura, em contraste com o tempo usufruído por Camilo, Castelo Branco, a propósito do qual escreve:

«Felizmente, os seus tempos foram de liberdade e pode exercê-la tanto nos escritos, próprios ou traduzidos, como nas polémicas contra tudo e contra todos. Ninguém se arrojou, em nome de nenhum direito, a coarctar-lhe o uso da pena. Podia proclamar: o poder menosprezou-me nos melhores dias da minha vida, mas não me fechou numa masmorra; não pôs entraves à expressão do meu pensamento; deixou-me falar segundo me pedia o entendimento ou a gana.»

«Nunca ele compreenderia as gargalheiras no espírito, essas que obrigam o homem a derramar sobre o próprio sangue o fel das suas convicções, acalcanhadas pela mordaça dos ditadores.»



 

fevereiro 02, 2026

Quando a História é tragédia e se repete como farsa

 

 


 

A História não se repete, mas insiste em deixar sinais reconhecíveis através de semelhanças que nos obrigam a pensar sobre o que, hoje em dia, está a acontecer com o crescimento inquietante da extrema-direita a nível mundial.

Tudo está em causa quando a democracia – que, pela sua abertura aos outros e à diferença de opinião, é uma espécie de barriga de aluguer de regimes autocráticos e verdadeiramente fascistas – é destruída por dentro, como se as mudanças autoritárias fossem a solução que o povo deseja, e não propriamente aquilo que os déspotas, suportados por interesses económicos, proclamam com o mais gritante despudor e a mais cruel falsidade.

É um facto, como o disse Karl Marx, em 1851: «a História repete-se, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.»

Mas qual é a comédia dos nossos tempos nesse processo de destruição que começa por ser uma opinião, transforma-se, depois, em lei e, por fim, integra a própria constituição?

Respondo com uma das mais aclamadas peças de teatro da última década, em Portugal, com texto e encenação de Tiago Rodrigues: Catarina e a Beleza de Matar Fascistas.

Assisti, há duas semanas atrás, a este espetáculo no Theatro Circo, em Braga, e tenho de confessar que a história não nos deixa indiferentes, dialogando connosco e interpelando-nos à reflexão sobre os limites da tolerância.

Na parte final da peça, depois de o fascista ter sido poupado à morte à luz de valores humanistas e democráticos, segue-se um longo discurso, carregado de ódio e de contradições.  O que aí está verdadeiramente em causa, pelo menos assim o senti, é o modo como toleramos a intolerância, como se esta fizesse parte natural das nossas escolhas políticas.

Se pararmos para pensar um pouco, as ideias xenófobas, que traçam a linha de separação entre “Nós” e “Eles”, são apresentadas em defesa de valores nacionalistas, salpicados de pseudovalores religiosos, num regresso saudosista ao passado, mesmo que a História, afinal, não se repita.

No final da peça, sente-se um murro no estômago, como se precisássemos de ser alertados para os perigos que tais ideias originam, mais ainda quando, facilmente, caímos na armadilha da irracionalidade.

É aqui que tragédia e comédia se encontram.

 

 



 Avolumam-se as publicações sobre o impacto das tecnologias de inteligência artificial (IA) na educação e nos percursos de escolarização, oscilando entre leituras claramente pessimistas, como se a escola estivesse a atingir a sua derradeira etapa de existência, e entusiasmos amplamente redentores, que proclamam o advento de uma nova era.

Na realidade, e tal como tem sido concebida desde meados do século XIX, ainda atravessada por resquícios de matriz medieval e sustentada na autoridade livresca do professor, a escola encontra-se, hoje, imersa no que tem vindo a ser designado como transformação digital.

Trata-se de um processo marcado por mudanças substantivas que incidem, primeiramente, sobre o conhecimento e a sua organização curricular, depois, sobre a pedagogia e os modos de aprender e, por fim, sobre a avaliação, se forem valorizados os três vetores de análise da estrutura escolar, propostos por Basil Bernstein.

Estas e outras transformações são analisadas no livro, de acesso aberto, Inteligência Artificial e Educação no Sul Global[1], escrito como resposta a um desafio lançado à compreensão das dinâmicas que se estabelecem entre a IA e a educação em contextos específicos, sobretudo quando existem restrições de recursos que tendem a aprofundar desigualdades já existentes, quer nos vetores anteriormente referidos (currículo, pedagogia e avaliação), quer no desenvolvimento profissional docente, na gestão escolar e na decisão política.

Continua…

https://www.publico.pt/2026/01/20/impar/opiniao/escola-inteligencia-artificial-promessas-desafios-2161723



[1] https://library.oapen.org/handle/20.500.12657/109353

janeiro 02, 2026

O Mundo como Sala de Aula. Lições de Montaigne

 

https://www.publico.pt/2025/12/19/impar/opiniao/mundo-sala-aula-licoes-montaigne-2158204


Centro de Investigação em Educação da Universidade do Minho

 

Já no capítulo “Do Pedantismo”, Michel de Montaigne aborda a educação a partir da crítica ao modelo escolástico, insistindo mais na abordagem das coisas reais do que na retórica e criticando o ensino que se destina a «encher a memória», deixando «a inteligência e a consciência vazias».

Todavia, é  no capítulo “A Educação das Crianças” –  usa-se, neste texto,  o termo criança, pois, se comparado com os de aluno e discípulo, é o mais usado em “Ensaios” – que o filósofo do humanismo renascentista expõe o seu pensamento pedagógico,  sobretudo na distinção entre erudição e sabedoria e na valorização do juízo e da conversação como elementos fundamentais de um nova maneira de ensinar, no seguimento dos «bons conselhos de Platão», ou do «mestre Platão», para além dos ensinamentos de Sócrates, de quem admira a ênfase no autoconhecimento e no saber ligado à prática, seguindo, no entanto, uma perspetiva diferente do método socrático.

Se, em termos de currículo, Montaigne não acrescenta nada de novo relativamente ao “Trivium” e ao “Quadrivium”, mormente ao nível dos conteúdos, seguindo muito de perto as ideias de Platão, expressas em “A República”, e condizentes com a valorização da Filosofia como conhecimento básico da formação das crianças, independentemente das suas idades, defende, contudo, uma mudança substantiva no modo de ensinar, argumentando que a educação é útil para formar o juízo da criança, uma vez que “a sua educação, o seu trabalho e o seu estudo visam somente formá-la».

Sem pretender entrar numa análise profunda do modelo de educação que o filósofo propõe, é possível identificar algumas ideias do seu pensamento pedagógico, que tem sido ora criticado, ora elogiado, sendo ainda pertinente saber de que crianças fala Montaigne em “Ensaios.”

Quem ler a “A Educação das Crianças” é confrontado com o elitismo de uma educação para a aristocracia, especificamente para alguns («jovens de boas famílias», na medida em que «todo o fidalgo deve ser educado à maneira de um cortesão»), e não propriamente para todos, cuja declaração universal viria a ser consagrada em finais do século XX.

Apesar de se situar, na abordagem que faz da educação, no campo das opiniões («Não tenho autoridade, ou o desejo para ser crido, e sinto-me mal instruído para instruir alguém»; «a verdade é que não sei nada sobre este assunto» ou «da maneira de criar e educar os filhos»), Montaigne apresenta, porém, uma argumentação interessante sobre o estado da educação na sociedade francesa do século XVI, com ênfase na crítica ao papel do professor e ao modelo escolástico de educação.

Antes de tudo, é necessário analisar a perspetiva de educação que Montaigne perfilha, sobretudo quando a liberta do estudo exagerado dos livros, e da sua memorização, e a aproxima da ação, ou das «coisas mais proveitosas» e práticas (a criança «recitará a sua lição tanto quanto a praticará. Irá repeti-la nas suas acções»), conferindo-lhe, por conseguinte, uma orientação utilitária, quiçá pragmática, como será dito séculos mais tarde, associada a um conhecimento prático («a ciência é um grande ornamento e um instrumento de uma utilidade maravilhosa»).

Neste sentido, e tendo como base autores greco-latinos, assume uma noção de educação que está ligada, no campo filosófico, ao ceticismo intelectual e à virtude moral e, numa dimensão pedagógica, à autonomia dos aprendentes, e não à mera memorização de saberes eruditos. Com efeito, afasta-se da mera acumulação de saberes oriundos de textos canónicos, defendendo a utilidade social e prática da educação.  Mais sinteticamente:  uma educação reflexiva, crítica e prática.

Como revela Montaigne, a aprendizagem da criança ocorria, de um modo apressado, nos primeiros quinze ou dezasseis anos da sua vida, devendo o resto à ação, perante a qual deveria demonstrar capacidade de formar um juízo seu, associado ao entendimento e à conversação, em oposição à «deplorável capacidade puramente livresca». É a busca desse juízo que despertará na criança «uma curiosidade honesta de se informar acerca de todas as coisas», presente quer na mentalidade renascentista, quer nos dias de hoje, quando a diferença entre informação e conhecimento tende a esvaziar-se.

Como a educação deve ter uma orientação utilitária, a criança tem de «abrir os olhos quando está em sociedade», tendo o julgamento e a sinceridade para «emendar-se, abandonar uma má determinação no ardor apaixonado de uma discussão», na medida em que o seu lugar de pertença, como Sócrates respondeu, é o mundo. Daí que a diversidade desse «grande mundo» deva ser o livro da criança, para que ela seja capaz de «viver em todas as nações e em todas as sociedades”, ou seja, num mundo mais inclusivo, de acordo com a agenda 2030 da ONU. Nada de mais atual se pode dizer de Montaigne, nomeadamente ao nível de uma perspetiva que, sobremaneira, enfatiza a diversidade dos lugares de educação, trocando a sala de aula fechada dos colégios que lhe eram coevos pela sala de aula aberta ao mundo, em que atualmente as crianças vivem, e no qual se assumirão como cidadãos globais, críticos e compreensivos.

É precisamente neste princípio que o pensamento pedagógico de Montaigne se torna vanguardista, tanto mais quanto nos caminhos da educação a desigualdade, a discriminação e a iniquidade são obstáculos significativos para uma verdadeira compreensão do mundo, no sentido educacional que lhe atribui Heidegger, na 2ª metade do século XX.

Na crítica que  faz à  educação do seu tempo, Montaigne apresenta um conjunto de orientações que derivam de várias lições, por vezes sobrepostas e incongruentes, com ideias que transmitem uma educação que tem no seu centro a Filosofia, e da qual discorre a partir de uma visão autobiográfica, com citação de várias passagens sobre a educação que recebeu a partir de seu pai, dos seus mestres e do colégio, cujo diretor foi André de Gouveia, um humanista português do Renascimento, de quem o ensaísta diz que «foi incomparavelmente o melhor director da França». Para além da noção de educação, já explorada no texto, há mais duas lições a destacar: uma sobre o professor e a outra sobre o ensino, mesmo que insista em dizer que apresenta «insignificantes e vulgares ideias pessoais».

E quais as novas maneiras de ensinar do professor (ou do mestre ou do preceptor, de acordo com os termos que aparecem no texto)?

É sobre o papel do professor que o contributo de Montaigne se sobreleva ainda mais, principalmente no modo como exerce a sua influência na educação das crianças. Por isso, coloca na escolha do professor todo o êxito da educação das crianças, afirmando que deve ser mais sensato do que erudito, e que tenha «antes a cabeça bem formada do que bem cheia», para além do seu valor moral e da sua inteligência, comportando-se «no exercício do cargo de uma maneira nova». Compete-lhe, assim, colocar a criança «na pista das coisas, levando-a a avaliá-las, a escolhê-las e a distingui-las por si mesmo, por vezes sendo ele a abrir-lhe o caminho, outras dando-lhe a liberdade de o fazer».

Será ainda alguém que conhece bem o método socrático, deixando falar a criança, com toda a autonomia que esta deve ter na conversação pedagógica, exemplificando com uma citação de Cícero: «a autoridade daqueles que ensinam é, com frequência, um obstáculo para aqueles que aprendem». Sem enunciar de forma clara a proposta de Sócrates, Montaigne defende-a no uso da dúvida face à aprendizagem, na discussão em torno de saberes, não num sentido rigoroso como o método socrático pressupõe, mas focando o autoconhecimento, a subjetividade e a experiência que uma criança pode explorar na sua própria aprendizagem.

 É também neste ponto que se destaca outra ideia muito poderosa de Montaigne, com o argumento de que ensinar é uma conversação que exige ação, isto é, muito mais do que o estudo dos livros e da sua memorização mecânica, a criança experimentará, observará, julgará e formará um juízo que será seu, e que lhe dá  a capacidade de pensar e agir, tal como será posteriormente defendido, entre outros, por John Dewey, sobretudo no livro “O Criança e o Currículo”, publicado em 1902.

Ainda no novo papel do professor, em vez de “repetir as palavras da lição” deve explicar «o seu sentido e a sua substância» à criança, avaliando o benefício que esta retira “não pelo testemunho da sua memória, mas pelo da sua vida», já que não será colocada “numa cátedra a debitar um discurso imposto».

Esta afirmação do autor sobre a autonomia da criança tem em conta ideais expressas por Platão, Sócrates e Cícero, advogando-se que aquele que aprende a formar o seu entendimento das coisas através da conversação adquire um conhecimento  mais crítico,  mesmo que, passados alguns parágrafos do texto, defenda, aquilo que tem sido bastante criticado no seu pensamento, que a autoridade do professor, «que deve ser suprema sobre a criança, é interrompida e prejudicada pela presença dos pais», ou que não é benéfico  educar uma criança no regaço dos pais», não sendo estes “capazes de punir os seus erros, nem de os ver educar de um modo duro e perigoso, como é necessário».

E como deve ser uma lição para a aprendizagem das crianças, segundo Montaigne?

A resposta é concisa: «a lição decorrerá ora conversando, ora com a ajuda de livros; umas vezes, o preceptor irá facultar-lhe [extractos] do próprio autor, adequados ao objectivo da sua instrução; outras, irá dar-lhe o miolo e a substância já mastigados». E dito de um modo mais instrucional: «Na lição que recomendo, o espírito encontrará algo que morder e com que se alimentar. O fruto será incomparavelmente maior e também amadurecerá mais cedo». Mas para que tal aconteça, defende que o ambiente da lição a que as crianças são sujeitas deve ser o de «uma branda severidade», não lhes sendo dado «somente horror e crueldade». Mesmo distanciando-se do despotismo pedagógico baseado no “magister dixit”, o autor tem uma visão do seu tempo sobre a disciplina com que as crianças devem ser tratadas no seu percurso escolar, não as considerando como sujeitos, mas como participantes ativos em projetos de aprendizagem moldados pelo seu futuro de adultos, apesar de evidenciar a subjetividade que ocorre nessa conversação pedagógica.

Por fim, Montaigne dá uma lição sobre si mesmo – e «sirva-se dela quem quiser» –, falando do modo como aprendeu Latim e Grego (embora lhes faça uma breve crítica como saberes para as crianças que frequentavam os colégios) e quanto à influência dos autores clássicos no estudo das Letras, pois «o meu gosto pelos livros veio-me antes de mais do prazer pelas histórias das Metamorfoses de Ovídio».

O essencial do pensamento pedagógico de Montaigne está precisamente nas novas maneiras de ensinar, cujo método centrado na conversação constitui uma fonte de motivação da educação das crianças, porque jamais esta estará limitada a “criar burros carregados de livros». Sendo muito problemático admitir que na sua aprendizagem há espaço para a severidade, mesmo que se fale em finais do século XVI, da boa educação de uma criança resultará a capacidade de esta entender o seu mundo, que lhe oferece outras salas de aula, numa conversação crítica acerca dos saberes que será necessário desenvolver em cada geração.