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Centro de Investigação em Educação da Universidade do
Minho
Já
no capítulo “Do Pedantismo”, Michel de Montaigne aborda a educação a partir da crítica ao modelo escolástico,
insistindo mais na abordagem das coisas reais do que na retórica e criticando o
ensino que se destina a «encher a memória», deixando «a inteligência e a
consciência vazias».
Todavia, é
no capítulo “A Educação das Crianças” –
usa-se, neste texto, o termo
criança, pois, se comparado com os de aluno e discípulo, é o mais usado em
“Ensaios” – que o filósofo do humanismo renascentista expõe o seu pensamento
pedagógico, sobretudo na distinção entre
erudição e sabedoria e na valorização do juízo e da conversação como elementos
fundamentais de um nova maneira de ensinar, no seguimento dos «bons conselhos
de Platão», ou do «mestre Platão», para além dos ensinamentos de Sócrates, de
quem admira a ênfase no autoconhecimento e no saber ligado à prática, seguindo,
no entanto, uma perspetiva diferente do método socrático.
Se, em termos de currículo, Montaigne não
acrescenta nada de novo relativamente ao “Trivium” e ao “Quadrivium”, mormente
ao nível dos conteúdos, seguindo muito de perto as ideias de Platão, expressas
em “A República”, e condizentes com a valorização da Filosofia como
conhecimento básico da formação das crianças, independentemente das suas idades,
defende, contudo, uma mudança substantiva no modo de ensinar, argumentando que
a educação é útil para formar o juízo da criança, uma vez que “a sua educação,
o seu trabalho e o seu estudo visam somente formá-la».
Sem pretender entrar numa análise profunda do
modelo de educação que o filósofo propõe, é possível identificar algumas ideias
do seu pensamento pedagógico, que tem sido ora criticado, ora elogiado, sendo ainda
pertinente saber de que crianças fala Montaigne em “Ensaios.”
Quem ler a “A Educação das Crianças” é
confrontado com o elitismo de uma educação para a aristocracia, especificamente
para alguns («jovens de boas famílias», na medida em que «todo o fidalgo deve
ser educado à maneira de um cortesão»), e não propriamente para todos, cuja
declaração universal viria a ser consagrada em finais do século XX.
Apesar de se situar, na abordagem que faz da educação,
no campo das opiniões («Não tenho autoridade, ou o desejo para ser crido, e
sinto-me mal instruído para instruir alguém»; «a verdade é que não sei nada
sobre este assunto» ou «da maneira de criar e educar os filhos»), Montaigne
apresenta, porém, uma argumentação interessante sobre o estado da educação na
sociedade francesa do século XVI, com ênfase na crítica ao papel do professor e
ao modelo escolástico de educação.
Antes de tudo, é necessário analisar a perspetiva
de educação que Montaigne perfilha, sobretudo quando a liberta do estudo
exagerado dos livros, e da sua memorização, e a aproxima da ação, ou das «coisas
mais proveitosas» e práticas (a criança «recitará a sua lição tanto quanto a
praticará. Irá repeti-la nas suas acções»), conferindo-lhe, por conseguinte,
uma orientação utilitária, quiçá pragmática, como será dito séculos mais tarde,
associada a um conhecimento prático («a ciência é um grande ornamento e um
instrumento de uma utilidade maravilhosa»).
Neste sentido, e tendo como base
autores greco-latinos, assume uma noção de educação que está ligada, no campo
filosófico, ao ceticismo intelectual e à virtude moral e, numa dimensão
pedagógica, à autonomia dos aprendentes, e
não à mera memorização de saberes eruditos. Com efeito, afasta-se da mera acumulação de saberes oriundos
de textos canónicos, defendendo a utilidade social e prática da educação.
Mais sinteticamente: uma educação reflexiva, crítica e prática.
Como revela Montaigne, a aprendizagem da
criança ocorria, de um modo apressado, nos primeiros quinze ou dezasseis anos da
sua vida, devendo o resto à ação, perante a qual deveria demonstrar capacidade de
formar um juízo seu, associado ao entendimento e à conversação, em oposição à
«deplorável capacidade puramente livresca». É a busca desse juízo que despertará
na criança «uma curiosidade honesta de se informar acerca de todas as coisas», presente
quer na mentalidade renascentista, quer nos dias de hoje, quando a diferença
entre informação e conhecimento tende a esvaziar-se.
Como a educação deve ter uma orientação
utilitária, a criança tem de «abrir os olhos quando está em sociedade», tendo o
julgamento e a sinceridade para «emendar-se, abandonar uma má determinação no
ardor apaixonado de uma discussão», na medida em que o seu lugar de pertença,
como Sócrates respondeu, é o mundo. Daí que a diversidade desse «grande mundo» deva
ser o livro da criança, para que ela seja capaz de «viver em todas as nações e
em todas as sociedades”, ou seja, num mundo mais inclusivo, de acordo com a
agenda 2030 da ONU. Nada de mais atual se pode dizer de Montaigne, nomeadamente
ao nível de uma perspetiva que, sobremaneira, enfatiza a diversidade dos
lugares de educação, trocando a sala de aula fechada dos colégios que lhe eram
coevos pela sala de aula aberta ao mundo, em que atualmente as crianças vivem,
e no qual se assumirão como cidadãos globais, críticos e compreensivos.
É precisamente neste princípio que o pensamento
pedagógico de Montaigne se torna vanguardista, tanto mais quanto nos caminhos
da educação a desigualdade, a discriminação e a iniquidade são obstáculos significativos
para uma verdadeira compreensão do mundo, no sentido educacional que lhe
atribui Heidegger, na 2ª metade do século XX.
Na crítica que
faz à educação do seu tempo,
Montaigne apresenta um conjunto de orientações que derivam de várias lições, por
vezes sobrepostas e incongruentes, com ideias que transmitem uma educação que
tem no seu centro a Filosofia, e da qual discorre a partir de uma visão
autobiográfica, com citação de várias passagens sobre a educação que recebeu a
partir de seu pai, dos seus mestres e do colégio, cujo diretor foi André de
Gouveia, um humanista português do Renascimento, de quem o ensaísta diz que
«foi incomparavelmente o melhor director da França». Para além da noção de
educação, já explorada no texto, há mais duas lições a destacar: uma sobre o professor
e a outra sobre o ensino, mesmo que insista em dizer que apresenta
«insignificantes e vulgares ideias pessoais».
E quais as novas maneiras de ensinar do professor
(ou do mestre ou do preceptor, de acordo com os termos que aparecem no texto)?
É sobre o papel do professor que o contributo
de Montaigne se sobreleva ainda mais, principalmente no modo como exerce a sua
influência na educação das crianças. Por isso, coloca na escolha do professor todo
o êxito da educação das crianças, afirmando que deve ser mais sensato do que
erudito, e que tenha «antes a cabeça bem formada do que bem cheia», para além do
seu valor moral e da sua inteligência, comportando-se «no exercício do cargo de
uma maneira nova». Compete-lhe, assim, colocar a criança «na pista das coisas,
levando-a a avaliá-las, a escolhê-las e a distingui-las por si mesmo, por vezes
sendo ele a abrir-lhe o caminho, outras dando-lhe a liberdade de o fazer».
Será ainda alguém que conhece bem o método socrático,
deixando falar a criança, com toda a autonomia que esta deve ter na conversação
pedagógica, exemplificando com uma citação de Cícero: «a autoridade daqueles
que ensinam é, com frequência, um obstáculo para aqueles que aprendem». Sem
enunciar de forma clara a proposta de Sócrates, Montaigne defende-a no uso da dúvida
face à aprendizagem, na discussão em torno de saberes, não num sentido rigoroso
como o método socrático pressupõe, mas focando o autoconhecimento, a subjetividade
e a experiência que uma criança pode explorar na sua própria aprendizagem.
É também
neste ponto que se destaca outra ideia muito poderosa de Montaigne, com o
argumento de que ensinar é uma conversação que exige ação, isto é, muito mais
do que o estudo dos livros e da sua memorização mecânica, a criança
experimentará, observará, julgará e formará um juízo que será seu, e que lhe dá
a capacidade de pensar e agir, tal como
será posteriormente defendido, entre outros, por John Dewey, sobretudo no livro
“O Criança e o Currículo”, publicado em 1902.
Ainda no novo papel do professor, em vez de
“repetir as palavras da lição” deve explicar «o seu sentido e a sua substância»
à criança, avaliando o benefício que esta retira “não pelo testemunho da sua
memória, mas pelo da sua vida», já que não será colocada “numa cátedra a
debitar um discurso imposto».
Esta afirmação do autor sobre a autonomia da
criança tem em conta ideais expressas por Platão, Sócrates e Cícero, advogando-se
que aquele que aprende a formar o seu entendimento das coisas através da
conversação adquire um conhecimento mais
crítico, mesmo que, passados alguns
parágrafos do texto, defenda, aquilo que tem sido bastante criticado no seu
pensamento, que a autoridade do professor, «que deve ser suprema sobre a
criança, é interrompida e prejudicada pela presença dos pais», ou que não é
benéfico educar uma criança no regaço
dos pais», não sendo estes “capazes de punir os seus erros, nem de os ver
educar de um modo duro e perigoso, como é necessário».
E como deve ser uma lição para a aprendizagem
das crianças, segundo Montaigne?
A resposta é concisa: «a lição decorrerá ora
conversando, ora com a ajuda de livros; umas vezes, o preceptor irá facultar-lhe
[extractos] do próprio autor, adequados ao objectivo da sua instrução; outras,
irá dar-lhe o miolo e a substância já mastigados». E dito de um modo mais instrucional:
«Na lição que recomendo, o espírito encontrará algo que morder e com que se
alimentar. O fruto será incomparavelmente maior e também amadurecerá mais
cedo». Mas para que tal aconteça, defende que o ambiente da lição a que as
crianças são sujeitas deve ser o de «uma branda severidade», não lhes sendo
dado «somente horror e crueldade». Mesmo distanciando-se do despotismo pedagógico
baseado no “magister dixit”, o autor tem uma visão do seu tempo sobre a
disciplina com que as crianças devem ser tratadas no seu percurso escolar, não
as considerando como sujeitos, mas como participantes ativos em projetos de aprendizagem
moldados pelo seu futuro de adultos, apesar de evidenciar a subjetividade que ocorre
nessa conversação pedagógica.
Por fim, Montaigne dá uma lição sobre si mesmo
– e «sirva-se dela quem quiser» –, falando do modo como aprendeu Latim e Grego
(embora lhes faça uma breve crítica como saberes para as crianças que
frequentavam os colégios) e quanto à influência dos autores clássicos no estudo
das Letras, pois «o meu gosto pelos livros veio-me antes de mais do prazer
pelas histórias das Metamorfoses de Ovídio».
O essencial do pensamento pedagógico de
Montaigne está precisamente nas novas maneiras de ensinar, cujo método centrado
na conversação constitui uma fonte de motivação da educação das crianças, porque
jamais esta estará limitada a “criar burros carregados de livros». Sendo muito
problemático admitir que na sua aprendizagem há espaço para a severidade, mesmo
que se fale em finais do século XVI, da boa educação de uma criança resultará a
capacidade de esta entender o seu mundo, que lhe oferece outras salas de aula,
numa conversação crítica acerca dos saberes que será necessário desenvolver em
cada geração.
